Não há memória, nem mesmo vaga, de quando as coisas começaram a mudar. É simples. Gostoso. Assim como deliciar-se com algodão doce. Algo tão natural que cresceu como aquele grão de feijão que é jogado no quintal úmido e vai brotando, nasceu sem ser regado. Sem pretensão alguma. E enroscou-se em mim como costumam fazer as lianas em busca, talvez, de afeto. E enquanto eu olho todas as coisas insanas que já escrevi pra ti, e sem coragem alguma, de postar ou te enviar eu me deparo com tantas possibilidades e palavras não ditas, de silêncios muitos. E então, aquele montinho de frases soltas, desconexas e folhas amassadas começam a fazer sentido: eu me apaixonei por você. Embora a vontade aperte muitas vezes cá dentro, eu me calo.

Não te escrevi mil cartas, mas creio que me aproximo dessa contagem a cada dia, elas vão se amontoando dentro de meu computador em uma pasta chamada: Dele. Que ironia, não? Se realmente fosse tudo teu, tu terias acesso a todas as minhas doces, algumas ásperas e tristes, palavras. E eu te leio a cada página de Caio F. Abreu, da mesma forma, que te leio em Vinícius de Moraes. E cada linha, imagino-me escrevendo tantos amores, que nem cabem dentro de mim.

É assustador. Ver-te em cada amanhecer, no sorriso das pessoas, nas estações do ano, no ar, no frio e em tudo que a vida me proporciona. É estranho. Não ter as rédeas e saber que os meus sentimentos me dominam a cada dia. E eu vou gostando cada vez mais das tuas palavras, e fico me perguntando se você é realmente aquilo que vejo, ou se é somente a projeção daquilo que sinto, entende? É-me absurdo te ver em todas as coisas que admiro e gosto. E se eu deixar de gostar delas? Deixarei de gostar de você também? E então, o amor seria apenas isso te enxergar nas coisas e quando não mais te visse deixaria de gostar? Desamar?

E eu perco nessa incerteza que me consome aos poucos. Essa que eu insisto em cultivar, mas se você soubesse como eu me sinto. E não, minhas palavras não são bonitas assim para ‘embonitar’ o texto, tão pouco acho isso. É apenas forma de expressão que busco, refúgio. Querendo amenizar o que está empurrando todas as janelas, derrubando paredes e esse telhado dentro de mim. E sabe, bonito, eu espero que as coisas melhorem para mim. Não entendo a forma que isso se fará, só espero pacientemente que dentro de mim os sentimentos se aquietem. E que essas borboletas que insistem em debater-se dentro do estômago amansem.

É, eu disse que não falaria mais sobre você aqui, mas se eu não falar enlouqueço. Sim, hoje eu transbordei. Quis transbordar.