Há muito havia me esquecido como era ouvir o meu nome saindo de teus lábios: doce - como havia de ser. E eu não esperava você, não daquela maneira, naquela circunstância. E você me veio naquela tarde cinzenta e sentou-se ao meu lado. Ali no chão. E eu usava um jeans surrado e você disse: - esse jeans tem história. E eu ri. E os seus dedos percorriam o meu pulso brincando com a fitinha de Bom Jesus da Lapa que recém-adquiri. E eu não disse nada. Apenas assenti. Porque as tuas mãos sempre me foram refúgio e os teus abraços sempre me envolviam quando eu queria - e quando quero. Mas eu não te chamei e mesmo assim tu vieste ao meu encontro. E aquela grama parecia tão verde, assemelhava-se a cor dos teus olhos. E eu disse: - tom verde grama. E você deu de ombros: - eles mudam vezenquando. Nós rimos porque era gostoso você me ter e vice-versa sem obrigações, sem pedir nada em troca. E nós éramos um do outro - sempre fomos, afinal.

E você me cantou todo azul do mar dizendo que era por causa da fitinha. Que a sua mãe gostava e que você, mesmo achando brega, gostava da poesia da música. Eu ri novamente. Porque você sabia que eu era bem boba com essas demonstrações de afeto e então corei. E nós nos fitamos por alguns instantes a mais. E o sol escondia-se atrás dos prédios anunciando que era hora de ir, mas você continuou ali. E eu sentia que as minhas emoções sempre mudavam quando te tinha por perto, mas não compreendia. E eu ficava me perguntando se a gente se amava, sem que os meus lábios se abrissem - apenas em pensamento. E você me lia claramente. E nossos olhos confusos e tímidos avistavam o nada, só o horizonte. E não precisamos dizer nada. E então eu lembrei que não houve um adeus, um até logo ou breve e que as despedidas nunca fizeram parte de nosso cotidiano. E a gente se pertencia e ponto final. Porque não tivemos um fim de fato.

E você me veio assim manso e sem pretensão alguma. Deitando-se em minhas pernas continuou ali por várias horas, até que a Lua estivesse no alto do céu. E eu te acariciava os cabelos negros como a asa de uma graúna e te cantava More than Words e a gente sempre se amava daquela maneira. Contida. Só com palavras, porque os gestos e toques já não nos satisfaziam mais. E naquela noite eu não te beijei e pela primeira vez vimos que era melhor assim. Porque não era necessário que nossos lábios se tocassem para que soubéssemos que éramos de fato um do outro.