Os passos apressados era característica comum dela, andava a passos largos e em sua mão carregava um guarda-chuva preto, tentava se esconder da fina chuva que caia. Usava um salto agulha tamanho quinze, com uma roupa social que ela odiava usar, mas que hoje era indispensável: uma reunião de negócios. Ela precisava fechar um contrato, o que lhe renderia um aumento e uma posição privilegiada na empresa. Há duas semanas vinha trabalhando em seu projeto, estava exausta, havia perdido a noção de tempo e espaço.

Chegando a seu trabalho, eufórica, correu em direção à sala de reunião. Todos os acionistas da empresa a esperavam ela, por sua vez, mostrou-se calma e exemplificou todas as idéias, sendo aplaudida com louvor – contrato fechado. Virou-se em direção a sua sala, exausta. E olhou para o porta-retrato que estava sobre a mesa: eles. Em uma época em que se pertenciam que eram felizes. Chorou. Sua mente estava voltada para o trabalho nos últimos dias, isso a preenchia de fato, mas agora que havia conquistado queria sentir-se feliz, mas não conseguia. Estava vazia de novo. Não havia contrato para preenchê-la. Só um vazio imenso, saudade.

Engolia as lágrimas tentando mostrar-se forte, alguns amigos a cumprimentavam pelo sucesso, e ela sorria, mas seus olhos sempre voltados à foto. De repente a sua amiga e recepcionista entra e lhe diz: – Feliz aniversário, Letícia. Acho que alguém também se lembrou disso. – E um senhor já idoso adentrou a sala e em suas mãos havia flores, gérberas amarelas, lindíssimas. Ela com um coração quase na boca e as mãos trêmulas pegou-as delicadamente, havia um pequeno cartão dentro as flores.

– Meu aniversário? – Ela havia esquecido completamente disso. E sorriu com esperança nos olhos.

E sentiu-se gelada ao mesmo tempo, pois teve medo. As pessoas estavam ao seu redor, olhando-a ansiosas também, flores em ambiente de trabalho era novidade e sempre motivo de fofoca. Mas desta vez, eles desejavam que as flores trouxessem felicidade à moça. Ela desejava que as flores e o cartão fossem dele. Tinha medo da decepção. Abriu o cartão com delicadeza, leu e suspirou. Era do seu melhor – não do dono de seus suspiros doces, mas de seu amigo: Bernardo. Ela não conseguiu ficar triste, como imaginava, sentiu-se alegre.

Talvez o moço não soubesse o seu valor, mas alguém sabia. Sorriu. Uma lágrima fugidia caia de seus olhos castanhos, mas não teve sabor amargo quando encontrou seus lábios.