Eu as via pomposamente ali no alto. Combinava com o verde musgo, escuro das outras folhas e com o caule marrom-preto. A moça que estava ao meu lado discutia ao telefone e eu podia ver o nó que se formara em sua garganta. Os seus olhos eram grandes de avelã e a sua pele negra era perfeita. Moça bonita - pensei. E eu olhava para as flores que ainda estavam lá, deslumbrantes em cima das árvores, imaginava apenas o tapete que se formaria embaixo daquela árvores quando as flores resolvessem cair, dançando com o vento. E a moça soluçava baixinho.

O fluxo de carros era lento, pois chovia bastante. E eu presenciava ali duas tempestades, aquela que molhava as flores amarelas do outro lado da BR e a que saia dos olhos da moça. Senti pena. E não queria sentir, pois se a tempestade estivesse em mim não gostaria de olhos penosos em minha direção. E ela soluçava pouquinho enquanto os carros andavam, olhando fixamente para o seu celular. E a dor era contida. E eu via aquelas flores lindas e sentia raiva. Por que tudo aparentemente é bonito?

E a moça começou a chorar penosamente, com soluços mais intensos e eu até podia sentir a vibração que fazia, pois a cadeira tremia um pouco. E eu senti raiva. Porque eu olhava para aquelas flores pequenas, medíocres e ainda assim elas eram lindas. E o celular dela tocou novamente, mas ela não atendeu. Tentei não prestar atenção no que acontecia, mas vi suas mãos trêmulas e a chamada assinada: amor. Então eu pensei: - Até amor correspondido magoa.

Só que eu não pensava em mim. Só conseguia enxergar ela ali. Porque ela sofria e mesmo que eu não a conhecesse fiquei triste por ela. E eu olhei mais uma vez pela janela do ônibus e as flores amarelas pareciam nos sorrir e então eu pude perceber: as flores tentavam animá-la e vi que realmente amarelo era alegria, mas também é desespero. - E ela desaguou.

E ontem enquanto eu estava rezando pelas famílias em um encontro, eu pensei naquela moça. E os olhos grandes e vermelhos dela estavam em minha mente, mesmo que inconsciente. E desejei de coração que ela fosse feliz. Assim como me dispus a ser. Sem interferências, sem pedir nada em troca, sem depender de ninguém. Salvação e felicidade depende apenas da gente, de nosso estado de espírito, quando colocamos alguém acima disso nos magoamos. Cedo ou tarde as pessoas irão nos magoar, isso é fato, apesar de não ser aceitável.

Deixem a porta aberta a felicidade pode cansar de bater.