Cápsula do tempo: carta aberta à minha filha.

22:37



Em um futuro, espero que não distante, talvez você leia esse texto e compreenda que o meu amor por você é antigo. Antes mesmo que você nascesse ou tivesse sido gerada eu já te amava com o meu coração. Lembro das muitas vezes que pedi em meus sonhos para que sonhasse contigo. De quantas vezes, em minhas orações, questionei a Deus se nosso encontro demoraria ou não. E do silêncio que se fazia a cada questionamento.

Houve um tempo em que me desesperei por achar que nunca teríamos a chance de nos encontrar. Só que um anjo veio até mim em sonho e me disse que havia um tempo para cada coisa sob os céus. Desde então, passei a acreditar que a vida estava nos preparando. Às vezes eu me pego pensando em todas as aventuras que iremos viver, em todas as bagunças que iremos aprontar no tapete da sala e do seu cheirinho espalhado pela casa. Das nossas aventuras na cozinha, das nossas leituras noturnas enquanto te coloco para dormir, dos nossos pés descalços na areia e de cada descoberta sua enquanto seus olhinhos curiosos passeiam por estrelas muitas. 

Penso em tanta coisa, minha menina.
Imagino a cor dos teus olhos, dos teus cabelos e o formato dos seus lábios. Será que ele formará um coração? Penso e tenho medo também. Medo de não ser uma boa mãe ou de ser atrapalhada demais. Medo de não te apresentar o mundo da maneira correta, de ser super protetora, de ser muito ciumenta e te sufocar. Sei que você pode ler esse texto daqui alguns anos e dizer: a mamãe parecia que estava prevendo o futuro. 

Escrevo mamãe e me dá um frio no estômago. O mesmo frio que eu sentia quando era criança e ficava esperando o Papai Noel chegar. Você é um presentinho tão amado e sonhado. E antes mesmo de conhecer os seus traços sei que já os amo com todo o meu ser. A tua mãozinha que afaga o meu coração, as tuas perninhas que sinto vontade de morder e tudo aquilo que somente nós duas conheceremos nessa aventura mágica e bonita que é (será) a maternidade.

Tenho pouca ideia de quando nós estaremos juntas pela primeira vez (embora sinta que estamos caminhando para este grande dia). A única coisa que tenho certeza é que quando este dia chegar todos os títulos, todas as formações e tudo o que fiz serão pequenos diante da grandiosidade que é a honra de ser a sua mãe. De ver em teus olhos um pouco de mim. Eu te amo muito antes de saber que um dia poderíamos ser. 

Com amor,
sua mãe. 

Relacionamentos

Amamos como pudemos.

17:27


Quando você partiu pensei que eu não fosse suportar. A verdade é que a sua presença era tão certa em minha vida como o nascer do sol todas as manhãs. Eu realmente não estava pronta para lidar com a sua ausência e a falta das suas mensagens matinais me desejando um bom dia. Só que esse dia chegou e eu suportei. Doeu demais ver você caminhando em direção oposta a mim, mas aos poucos fui entendendo que não éramos para ser. Criamos um mundo em nossas mentes, possível somente aos nossos sonhos. Ansiávamos pelo dia em que ficaríamos juntos, mas nos contentávamos com aquilo que era possível a nós. Amamos como pudemos. Fomos como poderíamos ser.

Desfizemos o laço quando já não era mais possível manter qualquer tipo de contato. Rompemos abruptamente. Sem olhar para trás nós recolhemos nossas memórias e, sem nenhum cuidado, as jogamos debaixo de um móvel qualquer. Nossas músicas nos doíam demais e apesar de irmos, voltávamos com frequência - na pontinha dos pés, na calada da noite, como quem só quer olhar de longe e saber que o outro está bem (ou se sente a nossa falta). Deixamos de ser há alguns anos e hoje estava pensando que após a sua partida eu consigo superar qualquer outra. Nenhum amor é eterno.  O amor é até onde permitimos que ele seja, até onde oferecemos terreno para que ele germine e floresça. Até onde nós nos dispomos a regá-lo.

A nossa relação me machucou ao ponto de eu acreditar que não era boa o suficiente para ser amada. Mas, ainda assim, eu me permiti ser de outro alguém. O problema é que venho repetindo padrões desde que você se foi. Venho abraçando amores impossíveis e difíceis demais de resolver. Meus relacionamentos não têm vingado, porque tenho buscado ser a salvadora da pátria de quem tenho estendido a mão. Depois de você pensei em amar um velho amigo. Tínhamos tudo para sermos um bom casal, mas não fomos. Amei errado demais, de maneira unilateral, então acabou. Antes mesmo de se fazer real.

Abri meu coração e resolvi dar uma segunda chance a quem soltou a minha mão. Não havia amor, mas havia carinho. E naquele momento eu só precisava curar um pouco a minha carência e me sentir desejada. Acontece que não sei brincar de amores e me magoei profundamente. Achei que poderia sair daquela quase-relação sem me magoar, mas não consegui e ao ser rejeitada confundi despeito com amor. Diante disso, tentei caber em um lugar que não me cabia somente para alimentar o meu ego. Não é novidade nenhuma que mais uma vez eu sofri.

Então cruzei o caminho com alguém que aprendi a amar ainda na infância e novamente eu me vi protagonizar uma história impossível. E mais uma vez, como minha psicóloga sempre diz, eu voltei a repetir padrões. Acho que me permito amar à distância, porque é seguro para mim. Porque não me exige esforços e nem me põe em conflito com traumas e medos que carrego dentro de mim. Hoje estou aqui, mais uma vez, me perguntando se o amor é tão difícil assim ou se algumas pessoas são sorteadas. Sei lá! A carta nem era sobre você, mas é que tudo é tão igual e dolorido que eu queria que você entendesse que não foi o único partir o meu coração (sempre haverá alguém que irá te superar).

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