Da vida

Decida-se viver.

19:42

"Todos os dias antes de dormir
Lembro e esqueço como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder (...)"

(URBANA, Legião).


Acredito que um dos sintomas de envelhecer é ter vontade de agarrar os dias que vão se passando. Todos as noites deitada em minha cama os meus olhos fixam o teto e, diversas vezes, eu me pergunto se estou no caminho certo. Algumas vezes a pergunta vem acompanhada de um suspiro doloroso. É como se ele respondesse: "você perdeu mais um dia de vida". Planejo em minha cabeça várias decisões para o dia seguinte, no intuito de diminuir os erros, de alcançar os meus objetivos e no outro dia, na reflexão noturna, vejo que mais uma vez fracassei.

Algumas decisões que eu julgavam certas à época trazem ao meu coração uma tristeza sem explicação. É como se as minhas escolhas tivessem em suas mãos açoites. E eu apanho sem poder questionar, sem margem para explicar as razões e porquês de tê-las escolhido. É como dizem por aí: "suas escolhas fazem você". Acho tão complicado o convívio humano e as relações. Algumas pessoas entram e saem das nossas vidas como se fossem, realmente, a casa da mãe Joana. Não encaro a vida dessa forma. Se abro a porta para alguém é porque espero, ou acredito, que ela venha de mala e cuia. Que permaneça.

Talvez a minha visão sobre relacionamentos seja tão antiquada quanto as canções que Roberto Carlos outrora cantava. Ele que é o amante à moda antiga, que manda flores e quem sabe até cartões. Aquele que namora no portão, que dá valor à presença do outro, que sente saudades com uma intensidade tremenda. Meu coração não tem a porta escancarada, ele tem chave e sabe que há um tempo certo para visitas. Talvez eu não compreenda ainda o tempo das coisas, talvez eu confunda a vida, o momento, as pessoas. E deixe as oportunidades passarem.

Acontece que há alguns dias meu coração se afogou no remorso por não me permitir, por podar a árvore antes que desse os frutos, por fechar as cortinas antes que o sol adentrasse o interior da casa. Mas ao mesmo tempo eu percebo e me convenço que não se pode convidar alguém para morar 'dentro' de nós antes de esvaziar os cômodos, de limpar as poeiras dos cantos. E penso que a vontade de Deus prevalece todos os nãos que uma vez dissemos ao outro. Um sim na hora errada pode ter um efeito avassalador. E é isso que me consola.

Perco.

19:16

Tenho a memória fraca demais e pouco tato para as coisas. Eu as perco. Perco as chaves de casa por onde ando, os meus óculos nos lugares mais improváveis e algumas pessoas, por aí, nesta longa estrada. Talvez por não estar suficientemente pronta para recebê-las. Meu coração é casa, mas esteve desarrumada por um tempo. Havia móveis demais. Entulho demais. E eu só percebi a desordem quando me vi diante de alguém, de uma lembrança. Uma pequena recordação que me fez pensar que posso até perder objetos, mas não pessoas.

Não esse alguém.

E hoje eu vejo o quão ‘errada’estive. Não em manter a porta trancada, mas por não me permitir abrir uma janela. Deixar que a luz entrasse pela fresta e beijasse o meu rosto, me convencesse que era ele. Talvez não seja. A gente nunca tem certeza de nada. Acontece, porém, que os olhos dele ou, talvez, a voz mansa me convenceu que eu estivesse completamente errada.

Convenceu.

Sobre fases

18:22

Eu tenho medo de dizer que estou apaixonada, mas eu cai em um abismo quando me vi dentro dos teus olhos. Queria não rotular os sentimentos que invadem o meu peito neste momento, mas eu aprendi a dar nome às coisas desde muito pequena. Como eu poderia dizer: "bate aqui dentro por ele um - que não sei o que é". Eu tenho medo de embonitar, medo - principalmente -, desse fogo que arde em mim. Eu só queria dizer eu me vi caindo em um abismo e dessa vez eu não morri.

@eupamelamarques

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