Aprendi a usar o acento da seguinte maneira: “o vovô usa chapéu e a vovó usa grampo no cabelo.” Aparentemente são coisas bobas que não dizem nada, mas são frases feitas que me vem agora e confesso-te que meus olhos inundam cada vez que penso em ti, na tua expressão enrrugadinha, o teu sorriso grande e a tua barriga de avô, como tem que quer ser. Sabes que ontem à noite não dormi porque eu devaneava em minha meninice e nos dias que passei em teu colo ou andando a cavalo contigo por aquelas terras distantes. Embrulha-me o estômago esse sentimento que trago cá dentro: é medo, vô. Misturado com a vontade de estar perto e desejo de abraço teu como quando menina tu me aninhavas. Porque eu sei que tu tens milhares de sonhos, apesar de todas essas décadas já vividas e me dói vê-lo sofrer desta maneira.

Não te contei, mas esses dias os primos vieram de Tocantins e rimos muito das tuas histórias, comparando as tuas aventuras com o tio-vô e eu podia ver-te menino ainda, moço e na idade atual. E sabe, vovô, me dói essa distância que não permite ouvir diariamente os teus causos, tuas muitas decisões e lembro-me bem eu criança na tua quitanda comendo halls de maçã-verde ou brincando de pesar coisas na tua balança e eu sinto um nó tão grande no peito, porque eu tenho medo de perder tudo isso. A mãe não dorme mais, chora todas as noites, porque tu te portas como criança não querendo ir ao médico. Sei que as nossas lágrimas ontem te convenceram que precisavas insistir e não se deixar por vencer, mas eu estou com um medo tão grande. Que preferia estar isolada em algum canto ou então ir ao teu encontro e ficar aos teus pés, vôzinho.

Só que alguns quilômetros insistem em nos separar dessa forma excruciante. E tu com saudades te entregas a bebedeira, meu doce, bebida mata. E tu tens que permanecer vivo para aninhar-me novamente no colo cantando-me aquelas tuas cantigas, lendo comigo cordel. E eu choro. Porque todas as noites quando eu vou dormir tenho medo de acordar com uma notícia ruim, entende? Porque eu vejo a mamãe chorar o tempo inteiro, as tias e os primos todos. E a minha casa está tão sem vida, cinza como o dia ontem, que esteve nublado. Amo-te, meu velho, e lembro-me de tudo o que vivemos até hoje. Eu te penteando os cabelos brancos, querendo te passar batom e você deixando. E eu vou lembrando cada coisa e tenho a certeza: não é tua hora. Fica aqui com a gente, porque a dor da despedida eu já senti e não quero novamente.