"O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola (...) o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença."

Eu só queria mais um copo desse wisky de quinta ou um pouco daquele conhaque barato que costumo comprar no supermercado todas as quintas. Para poder aliviar o peso que se encontra em meus ombros, livrar-me dessa tensão toda. Esse é o terceiro maço de cigarros que fumo hoje e quer saber de uma coisa? Não me importa que meu pulmão grite por ar, que ele fique congestionado ou que meus dentes fiquem amarelados. Porque já não preciso de boa aparência e muito menos aprontar-me para recebê-la depois de um longo dia de trabalho. Porque ela se foi. E nada mais me importa sequer as recordações que ficaram intrínsecas a mim e que insistem em assombrar-me todas as noites, os doces beijos dela, as muitas loucuras que aprontávamos e o amor feito em pleno meio-dia com o sol a pino, deixando os corpos incrivelmente incendiados. Porque ela simplesmente veio enquanto eu estava fora e esvaziou todo a cômoda e os dois lados do guarda-roupa que ocupara com suas infinitas calças jeans. Esvaziou meu apartamento da alegria, do sol e sequer deixou um bilhete dizendo aonde iria.

O telefone dela que não atendia mais, o endereço que estava vazio e o porteiro que não sabia de seu paradeiro enlouqueceram-me. Clarisse sempre tão inconstante deixou-me a ver navios e não quis despedir. Talvez soubesse que eu imploraria para que ela ficasse que me colocaria a seus pés fazendo várias juras de amor – o que não me era difícil – ela, deixou-me aqui com um meio coração. Sem batimentos cardíacos e pulsação fraca. Ela simplesmente levou-me a vida. E enquanto eu ouço Lady in red do Chris De Burgh no Juke Box desse bar de motoqueiro, as lágrimas me vem impiedosamente. E eu morro por dentro. Pensando que ela simplesmente quis ir embora por ter achado que o amor havia caído na rotina. Se ao menos eu soubesse o que aconteceu, porque ela não me responde aos emails.

Uma, doze, vinte e cinco doses de tequila e eis que meus olhos vêem. Talvez uma miragem ou apenas o desejo de que seja ela. Calça jeans apertada, tomara-que-caia preta e muito lápis nos olhos. E os meus entreabertos conseguem enxergar o seu rosto, sim, Clarisse, em carne, osso e mãos envolvendo sua cintura. Ele, aparentemente, quarenta anos mais velho coberto de correntes de ouro e uma bota ridícula de cowboy baba-lhe a bochecha. Enquanto isso, Clarisse olha-me com os olhos desesperados. Ri ridiculamente, com gargalhadas espalhafatosas e com um súbito momento de raiva levantei-me aplaudindo-a.

- Bravo, bravo, Clarisse. Se era dinheiro que você queria devia ter dito antes e eu mesmo teria me afastado de você. Ambiciosa. Alegro-me de não ter esperado mais.

E os lábios dela tremiam. Seus olhos encheram-se e logo transbordaram. Tola. E aproximando-se de mim, Clarisse apertou-me o braço arrastando-me ao único toalete que havia naquele local dizendo que era necessário tudo aquilo, que precisava de grana para bancar os estudos, e outras desculpas que só me fizeram cuspir-lhe a cara. Ela não tinha mais a doçura que me encantava, tinha sim os mais bonitos lábios que eu já vira, mas em nada me comoveu. Suas palavras não me atingiam, suas tentativas de beijar-me eram evitadas e o eu te amo dito por ela apenas me deu náuseas. Ela era apenas o rascunho daquilo que eu havia amado. Era apenas uma cópia bem mal feita, algo que eu queria definitivamente apagar da memória. E a deixei lá, naquele seboso banheiro com palavrões escritos em toda a parede, mas antes de sair mostrei uma palavra escrita na porta, perto da maçaneta em letras garrafais: "Puta". Era isso o que ela era.
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