Meu coração martelava junto com as ondas sonoras que vinham do trio elétrico, podia sentir a vibração de cada instrumento que compunha a melodia que banhava a avenida. E ali em meio a várias pessoas usando abadas verdes com branco avistei-o. Estava no trio elétrico e suas mãos inquietas tocavam harmoniosamente a percussão. O gingado do rapaz que tocava dançando e com sorriso largo nos lábios deixou-me compenetrada, tal era minha concentração que já podia prever qual seria o seu próximo movimento, qual sorriso de excitação ele desenharia no rosto, tão dentro eu já estava daquilo tudo. Mas sabia que jamais ele me notaria, milhares de outras meninas gritavam-nos de forma enlouquecida. E eu contida apenas o observava.

Quando a música toca e freneticamente os foliões cantam: “Como é que você foi embora sem dizer pelo menos adeus...” Ele baixou seu olhar para mim, parecendo-me sorrir. Olhei para trás a fim de perceber se era comigo mesmo que falava e para minha surpresa: era. Com um sinal balançou a cabeça e com gestos com suas mãos disse que queria conversar comigo depois. Gelei. E o esperei. E as músicas seguintes iam melodiosamente casando com nossos olhares muitos e eu sentia um turbilhão de sentimentos dentro de mim. Desejo, vontades. A banda deu lugar à outra tão agitada quanto e logo eu o procurava entre milhares de pessoas, assustei-me com um cheiro no cangote, que me enfureceu deveras. Virei-me bruscamente para o indivíduo e o susto foi tamanho: ele. Olhos esverdeados, camisa regata branca e os bíceps a mostra, sem fôlego fiquei diante do monumento. Ele riu.

– Assustada moça. Sou eu. – o som de sua gargalhada era tão doce e gostosa aos meus ouvidos que o sangue de todo o meu corpo me parecia pintar as bochechas de vermelho vivo.

E eu o olhava boquiaberta pensando em meu íntimo: que monumento. E ele parecia me ler perfeita. Pegou-me pela cintura e no ouvido cantou-me: “só sei que o corpo estremece a pernas desobedecem, inconscientemente a gente dança.” E no final da frase disse: - É assim, menina, quando a gente de longe avista quem por um minuto nos tira o fôlego. – E então eu quis cambalear.

– Deves falar isso para todas outras meninas que tu encontras nas cidades. Tens o olhar mais penetrante que já viste. Acredito que me seduziste. – Falei timidamente, mas corajosamente. Eu não podia deixar passar em branco aquela oportunidade.

Ele pegando-me pela nuca disse-me beijando-me o canto da boca. – Podes acreditar nisso, bonita. Ou então deixar que esta noite seja única e intensa para ti. Porque te digo que a tua boca me chama e eu posso ver isso. Não se pode fechar a porta para as oportunidades, vez ou outra a felicidade vem acompanhando-a.

E o que eu poderia fazer? Deixe-me seduzir por aqueles braços, aquela pele um pouco suada, mas ainda assim cheirosa como se devia ser. Ele beijando-me calorosamente, dedilhava seus dedos entre minhas costelas num vai e vem infinito e só pude desejar que a noite não acabasse. E a música que sempre me lembrará aquele momento será a que sempre embala todas as vezes que ele vem tocar aqui na cidade: “o fogo é fogo, esquenta, esquenta o nosso amor (...) esquenta que o Ara chegou.”