Serafim;

00:45

Desferiu um golpe, o primeiro, acertou a sua mão esquerda que sempre lhe afagava os cabelos com cafunés deliciosos. Profundo. E ela olhava-o atônita, sem acreditar o que acabara de acontecer. Puxou a mão junto ao peito e gritava-lhe, não palavras horrendas como se pode imaginar, mas palavras amenas tentando acalmá-lo. Mas ele não a ouvia. Rasgou-lhe a blusa de cetim e cortou seu ombro, aquele que por muitas noites lhe servia de porto, onde ele dormia aninhado a ela. Ela não lutava mais e não pensava em correr, porque sabia que eles eram um só. Que o amor que havia dentro dele iria gritar a qualquer momento, acordando-o, mostrando que havia ferido a própria carne. Mas Serafim continuava gritando que não agüentava mais, que a mulher lhe havia maltratado com a sua indiferença nos últimos dias, e que ela merecia todo aquele tratamento porque ela o ferira antes. Pegou o vaso com as magnólias que enfeitavam a mesa da cozinha e as jogou contra a parede, espatifou-se. E então ela chorou.

Ele não era anjo – pensou. E as suas lágrimas lavavam o sangue de sua bochecha, de um vermelho que não remetia a paixão. Era dor. E ela não entendia o porquê daquela situação, o que lhe causara o que tinha feito para que o amor tivesse se tornado fúria. Não quis se aproximar. E antes de sair da cozinha disse: - É injusto o que está fazendo comigo. Eu sempre quis o teu bem, te fazer feliz com meus gestos, quis te amar. E eu não sei o que houve, qual deslize cometi e você me vem ferir. E ele nada disse. E um último golpe desferiu na moça de olhos amendoados, acertando-lhe o coração – aquele que ela o depositara com tanto cuidado e ele sentiu. Sentiu que as suas pernas ficaram trêmulas, que estava sufocando, a cabeça começou a girar como uma labirintite aguda e sentia o gosto do sangue nos lábios e a moça com os olhos arregalados olhava-o e ele não entendia porque estava sentindo aquilo e ela lhe disse: - No coração, bonito, havia apenas você.
Desfaleceu. Ambos.
"Para o doce do Rodrigo que me deu ideia da história.
Amores vem e vão e teu coração logo será ocupado.
Te amo, amigo."

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11 comentários

  1. Que lindo!
    Que perfeito!!
    Não sei nem o que dizer...só sei que adorei!!
    bjos

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  2. O amor romântico é permeado de tragédias e a mim parece que homens e mulheres em alguma medida padecem de falta ou abundância. Mas em nome do amor tantos desatinos são cometidos, não é, Pamela?

    Seu texto é impecável.

    Beijos e um 2010 melhor que bom.

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  3. Aqui em cima resumiram por mim : IMPECÁVEL!


    Me ensina a fazer o mesmo?
    Aliás, isso se tem nas veias pulsando ou então ñ se tem, e Deus foi muito generoso ctg ao lhe dar tanta capacidade. mas, vc merece! xD

    Bjos, "namorada"

    ;)

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  4. Forte.
    Emotivo.
    Trágico.
    Ah, gostei.

    Charlie B.

    Ps. Todo mundo na ressaca do Ano Novo, rs.

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  5. Own, que triste :/
    Mas ficou bonito ;)

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  6. Qual momento é capaz de conter um coração em fúria?

    Texto intenso, Pâmela! Dá para sentir o calor de tuas palavras através delas próprias.

    Beijos.

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  7. É assim que as coisas acontecem mesmo. Palavras, gestos, vem e nós machucam mais que feridas abertas.
    Perfeito o texto.

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  8. Caraia! Você escreve muito bem, fino. Precisava de uma inspiração assim, vou guardar esta página aqui nos meus favoritos para me motivar a escrever certo, acho isso uma merda mas lendo como você escreve e usa bem as normas me deu uma esperança para o corrreto uso linguistico da porra toda. Qaundo a preguiça for eu vou tentar.
    Parabéns moça de rosa!

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  9. Não contive o riso com o "No coração, bonito, havia apenas você." Ironia e fúria ligados somente a um sentimento maior, amor.

    Ótimo ideia do seu amigo, pois ficou um texto maravilhoso!

    Beijos
    ;*

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  10. Não aguentei de saudades daqui!!!
    Vim bem ligerim...

    Este é dos teus melhores!!!!

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  11. Como diria minha avó, vai um e vem outro.

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