“Quando ela dorme em minha casa
O mundo acorda cantando...”
Zeca Baleiro/Fausto Nilo



Vês que objetos e seres inanimados tornam-se adjetivos em minha boca a fim de dar-te poesias inúmeras. Visto tempestades inteiras, banho-me com luzes vindas do céu, vejo-te em luzinhas que sonham em serem estrelas, vejo o esconde-esconde de vaga-lumes que brincam à noite e tudo me traz você. Porque quando você dorme em minha casa eu só quero te olhar e fico enraivecida quando o sono me vem pregar peça privando-me de te olhar os movimentos adormecidos, a respiração leve e os cabelos negros que ficam sobre os olhos. É que deitar a cabeça sobre teu peito me é reconfortante, ouvir cada batida dele traz-me alegria tamanha que poderia congelar o tempo, fazer que as horas, segundos, que o ponteiro continuasse parado ali. Só para te ter em minhas mãos, nos meus braços a noite inteira como deve ser. Porque quando você dorme em minha casa o sol amanhece sorrindo e os meus pés enroscados nos teus já não são frios.

Eu queria tanto dizer: “eu te amo”. Sem aspas, entrelinha queria dizer abertamente para que tu dormisses todos os dias aqui comigo. Mas a garganta se fecha e eu apenas pigarreio. E tu, doce, não me vês tal qual sou em minhas noites insones. Impaciente, inquieta, observadora e principalmente apaixonada. Irrevogavelmente. E esse abajur que ilumina metade da tua boca me vem provocar a loucura. E enquanto a música toca baixinho na rádio Consuelo Velázquez cantando “Bésame Mucho” eu te peço piedosamente que continues aqui dormindo para que os teus beijos tão meus estejam sempre ao meu alcance. É que a noite quando tu dormes até os grilos cantam afinados e o tique-taque do relógio parece dançar compassado com as batidas de meu coração. O mundo inteiro canta teu nome.

E então eu vou observando tudo que está ao nosso redor, reunindo diversas palavras e olhando no espelho vou ensaiando como eu te digo para que não soe fácil e muito menos falso. Que seja verdadeiro, assim como o que eu sinto aqui dentro. Para que não te assuste, para que tu não fujas de mim e permaneça aqui mesmo que meio grogue de sono, com os cabelos desgrenhados. E então quando os teus olhos abriram de manhã, amor. A única coisa que escapuliu dos meus lábios foi: "bom dia". Acredito que os meus olhos já te disseram inúmeras vezes o que minha boca insiste em não dizer.