O trem está quase partindo, eu posso ouvi-lo a quilômetros, deslizando sobre os trilhos a uma velocidade razoável, creio que se você quiser, poderá me encontrar aqui se apressar o passo. Sim, os meus olhos vagam em todas as direções, como uma rosa-dos-ventos, na esperança de te ver surgir de alguma entrada, atrás de alguma pessoa, assim do nada.

Os segundos vão passando rapidamente e o trem não vai esperar você chegar, bonito.
Eu me agarro apenas a esperança de você ter reparado, captando tudo que sempre houve entre nós, as minhas entrelinhas e alguns deslizes que cometo, propositalmente, para que descubras o que há além das palavras, dentro de mim.

O trem apontou na curva, meu bem. E eu ainda não consigo enxergar o teu rosto entre milhares de rostos que circulam a estação. Os meus olhos se enchem de lágrimas, mal posso enxergar as letras garrafais de um pôster de que diz: “haverá sempre um amanhã para recomeçar”.

O trem chegou e eu continuo sentada em cima da minha mala cheia de esperança, sonhos e desejos. Bagagem essa que levarei não sei para onde, mas que não poderia deixar aqui contigo. É, bonito, você vai mesmo me deixar partir. Eu sei.

E meu peito aqui cheio e congestionado quer gritar, chorar. Queria que as coisas fossem diferentes, que quando eu colocasse os pés dentro desse trem eu te avistasse.

Adeus, meu amor.

E você permanecerá sempre dentro de mim, bonito. Porque em (...) "minha memória - tão congestionada - e no meu coração - tão cheio de marcas e poços - você ocupa um dos lugares mais bonitos".
Caio F. Abreu