Eu sei que já está meio tarde e o relógio insiste em dizer que é hora de dormir, mas atenda ao telefone. Por favor. É que – excepcionalmente hoje – criei coragem de lhe falar. Sim, que esperaria você na praça de vestido florido com tranças nos cabelos e bochechas rosadas, que eu te levaria um buquê de rosas depois do expediente e lhe entregaria as vinte e duas cartas que te escrevi desde as 08 da manhã. Que eu continuaria apaixonada por você, mesmo que você adotasse um estilo skinhead. Só me atenda.

É que eu sinto que estou me perdendo dentro dessas poesias que insisto em escrever dentro da cabeça. Olhe. Vou te confessar que ando com um bloco de anotações – não ria – só para escrever cada sensação e sentimento quando eu me lembro do teu sorriso largo. Os meus dedos estão doendo de apertar o redial, mas parece que você não está. Olha a minha mãe veio até aqui e perguntou o porquê de meus olhos estarem vermelhos. Sabe a minha rinite alérgica? Eu nunca amei tanto ela. Minha mãe acreditou.

Acho que meu xarope está vencido. Deve ser isso. Talvez se eu estivesse em sã consciência não teria tirado o telefone do gancho. Sou bem insana mesmo. Você diria inconstante, eu sei. Mas também não diria nada. Afinal te sou amiga, apenas. E você me dói, não por me doer propositalmente, entende? Acho que a culpa da ferida que está crescendo dentro de mim sou eu mesma.

Tudo bem, vou desligar o telefone. Nem precisa retornar a ligação. Não vou estar acordada mesmo e talvez a coragem de lhe falar já tenha se esvaído.

É eu tentei.