Para não dizer adeus.



Acordei com você zelando pelo meu sono. Não tinha muita noção da hora, é que sempre que adormeço ao seu lado, os ponteiros parecem ganhar vida e bailam sobre o relógio em seu próprio espetáculo. Não sei a quanto tempo você estava ali me observando. Bukowski lhe fazia companhia em seu colo e, entre folhear de páginas, sua mão repousava em meus cabelos afagando-os entre os dedos.

Foi justamente num suspiro mais profundo que acabei por despertar. Ainda não sei se o livro ou o afago lhe arrancou esse arroubo de ar mais forte, mas sei que, ao abrir meus olhos, os seus já me fitavam com a ternura de quem encontrara ali um cais em meio ao caos mundano. Daí então, fui presenteado com seu sorriso. Acho que foi exatamente por ele que eu me apaixonei. Ou melhor, através dele que fui contaminado. Depois que seu sorriso me invadiu o peito, todo o resto era um complemento do que havia de mais perfeito diante dos meus olhos. Seus castanhos amiudavam sob as bochechas, enquanto seus lábios formavam um ângulo exato entre a pureza e a tentação, entre a beleza e a perfeição. Te ver sorrir me inebriava a alma, parecia que tudo ao redor começava a passar em câmera lenta enquanto seu riso aflorava, sabe?! E eu ria. Por dentro e por fora. Completamente extasiado tentando entender se aquilo tudo era real.

Enquanto Bukowski fechava suas páginas e se deitava sobre o criado-mudo ao lado da cama, você deslizou entre meus braços e entrelaçou suas pernas nas minhas. Acomodou-se exatamente ali, entre meu braço esquerdo e o ombro, quase fazendo morada no cangote. Sua mão acariciava minha barba, percorria meu pescoço com os dedos, descia suave sobre a barriga até repousar de volta no pulsar do peito. Fechou os olhos, me sorriu em forma de um "eu te amo", suspirou e adormeceu. Adormecemos.

Os ponteiros parecem ganhar vida e bailam sobre o relógio. Há pouco mais de um mês você adormeceu, pela última vez, ao lado meu naquela cama de hospital. Hoje anseio cada noite de sono, só para poder estar contigo alguns instantes mais. E, nesses sonhos, ainda posso acordar com teu olhar singelo, sabendo que tenho o seu amor para me zelar.




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