Aqui você jaz



Achei que contaria ao mundo sobre nós. Sobre o romance que tivemos, sobre as verdades que vivemos e sobre toda aquela suposta reciprocidade que acreditava que tínhamos. Tão doloroso constatar que você é igual aos outros. Tão excruciante olhar para você e não te reconhecer. Tão desesperador olhar para trás, lembrar meus questionamentos, ligar pontos e descobrir mentira atrás de mentira. Tão assustador perceber que amei apenas uma ideia do que você era. 

Olho para trás e não consigo lembrar do meu melhor amigo, da pessoa que se importava comigo ou que motivava a caminhar. Olho para trás, fecho os olhos e ouço a sua voz me chamando de amor de um jeito amargo. O doce já não existe. Olho para dentro de mim e percebo que todo o amor que existia se tornou rancor. Tão triste olhar para você e ficar atônita, não ter reação, me  sentir dormente. Tão triste olhar para o que fomos, sentir pesar e não saber distinguir a mentira da verdade.

A gente sempre espera o melhor dos outros. Em você eu ancorei meu coração sem medo de ser feliz. Em você eu depositei todas as minhas fichas. Desenhei o rosto do meu filho a partir dos teus traços, imaginei um futuro que poderia ser bom para nós dois. Cresceríamos. Seríamos grandes. Daria apoio a você no que precisasse. Éramos um time, pensava eu. Fiz do teu mundo o meu. Tentei me inserir no teu para que pudéssemos caminhar lado a lado. Pensei e repensei como seria a minha vida ao seu lado. Doeu um pouco, a princípio. Não seria fácil, mas você era o amor da minha vida.

Você era o amor da minha vida, mas eu nunca fui o seu. 

Tão difícil constatar que as desculpas escondiam mentiras. Que as demonstrações de afeto eram veladas, para que outra pessoa não descobrisse. Que você dividia o seu "amor" comigo e a cama com outra pessoa. Que triste olhar para nossa história e perceber que você nunca fizera questão de nós. Que triste lembrar das conversas, das indagações e descobrir a sua infidelidade. Infidelidade comigo. Infidelidade com ela. Infidelidade com você.

Essa é a última vez que escrevo sobre você. Esse é um texto fúnebre. Esse é o seu enterro em minha vida, em minha história. Há dias que venho pensando sobre o que essa história me trouxe e acredito que as lições que aprendi com ela já bastam. Não há porque remoer mais nada ou relembrar qualquer coisa. Eu já não tenho lembrança dos seus olhos ou de sua voz. Eu já não lembro como era ouvir seu bom dia ou boa noite. Tudo se evaporou. Reduziu-se a pó. A nada.

As músicas já não me doem mais. Tiago Iorc toca e não me atinge. Ivo Mozart é indiferente. E tantas músicas que eram nossas hoje são apenas músicas. Não me causam mais nada. Não me causam açoite. Não me emocionam. Não me apertam o coração. Não dá para dizer se te amo ou não. Sei apenas que as suas lembranças se foram de mim.

Tão difícil olhar para a nossa história e perceber que ela era um castelo de areia construído por uma menina boba e cheia de sonhos. Tão difícil olhar para você e não enxergar verdade em suas palavras. Tão difícil olhar para mim e perceber que não existe mais nada de bonito que te envolva. Tão difícil olhar para o meu peito e não enxergar um coração de carne. Tão difícil olhar para você e perceber que você é tão igual aos outros.

Essa é a última vez que escrevo sobre você. Esta é a sua lápide. Aqui você jaz. Jaz com todas as suas mentiras, com todas as suas canções, com todos os áudios de voz mansa, com o meu apelido e nossas selfies. Jaz com a sua namorada ou amante. Jaz com tudo aquilo que um dia fingiu sentir. Jaz com todas as desculpas sobre dificuldades e adversidades que na verdade escondiam, apenas, uma outra mulher. Aqui você jaz. Para mim. Para os meus sonhos. Para a minha boca. Para minha vida.

Aqui você jaz.




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4 comentários

  1. Eu acho que nesse enterro eu posso até ser convidada a jogar a primeira pá de terra, né? Mas acontece que eu vim foi com uma caçamba inteira, minha fíleaaaaaaaaa!

    Tá arrasador, como de costume. Mas esse eu jogo as mãos ao céu, porque tem meses que eu peço a Deus por esse livramento na tua vida. E ele veio. Amém.

    RIP.

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  2. Muito lindo e inspirador... Parabéns Pâmela, me deixa cada vez mais encantada por seus textos, me identifico muito!

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