Quando eu deixar de te amar.



Você deixará de ser parte do meu dia, da rotina cansada, dos dias ensolarados e cheios de vida. Apenas deixará de ser. As tuas lembranças ficarão amarelecidas como as cartas antigas que os meus avós trocavam no início do namoro, será uma película cinematográfica em preto e branco, sem voz, e pouca vida. As minhas pálpebras já não serão mais o esconderijo da tua imagem e a constelação que tu me desenhavas nos olhos, com teus doces beijos, será engolida por um buraco negro qualquer. As estrelas deixarão de (nos) existir.

Quando eu deixar de te amar o meu desejo de compartilhar contigo minhas pequenas vitórias será transferido a outro alguém, dividirei o meu pote de Nutella com outra colherinha, chorarei no ombro de outra pessoa as minhas perdas e desenharei, ainda, os meus melhores sorrisos, com os meus braços envoltos no pescoço dela, enquanto dançamos uma música qualquer de Ed Sheeran. E por falar em música, algumas delas, aquelas que embalaram os nossos melhores momentos, deixarão de contar nossa história, nossos momentos. Passarão a ser um hit qualquer ou, quem sabe, uma playlist excluída da memória do meu celular.

Sempre acreditei que amar era uma espécie de queda em um bueiro. Anda-se distraído por aí, sem olhar para o chão ou para os lados, e de repente você cai. Vê-se dentro daquele emaranhado de sentimentos, se vê preso em sensações indefiníveis e percebe, aos poucos, que eles vão se tatuando na pele, no coração, na alma. O amor é indelével. Nós caímos, vocês cairão – sorte a sua se um dia tiver um arranhão – porque daí saberá que o amor mesmo sendo um tombo, mesmo arranhando as tuas partes, permanece em nós através das pequenas cicatrizes.

Quando eu deixar te amar haverá, ainda assim, mesmo em meio a tantas negações e vontade de não mais ser, uma arranhadura em meu coração. Porque amores vêm e vão – a gente sempre soube e sabe – mas eles nunca vão de fato. Por inteiro. Sempre há uma cor, um sabor, um gesto, um perfume, a nos teletransportar para a vida do outro. E dói. Mesmo a ferida com casca, dormente e sarada. Porque doer sempre foi, e será, a forma de o coração mostrar que um pouco de nós foi embora. Que partiu nas roupas jogadas na mala, nos pertences recolhidos do banheiro, nas anotações diárias e conjuntas da agenda, no coração que nos coube por tanto tempo.

Quando eu deixar de te amar a ferida que ardia, feito merthiolate recém colocado, será aliviada por um sopro de uma brisa leve. Os nossos caminhos seguirão direções opostas, um novo eixo será apresentado a nós, a vida seguirá calma, mansa e reta. Sem curvas, sem maiores embates. Os dias se desenharão sem a necessidade da tua presença, aos poucos você deixará de ser assunto em minhas queixas, o sentimento se esvairá. Quando eu deixar de te amar você se tornará apenas uma breve lembrança, poeira no meu filtro de memória. Um acontecimento preso ao meu passado, que não mais será reportado em minha história.

Texto originalmente postado em Superela.
Fotografia: Maud Chalard.


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