Ela só quer ser amada.


►Leia ao som de She will be loved.◄

Ela veste o seu melhor vestido, usa seu perfume caríssimo e sai à procura de alguém para conversar. Senta sozinha no bar de sempre, pede seu drink preferido enquanto conta como foi a semana para o barman. Toda semana é sempre igual. A moça de cabelos vermelhos e olhos de tigre fez daquela sua rotina. Ela só quer ser amada. É o que sempre diz aos que se aproximam. A vida parece ser muito ingrata e os amores apenas versos de tolas canções. Ela se embriaga mais uma vez à espera de alguém que lhe estenda a mão.

Dois, três, quatro, oito drinks já se foram. Suas roupas estão jogadas, mais uma vez, em um motel da cidade. Ela as recolhe com a dor de quem recolhe seus cacos. Mais uma vez se entregou aos seus desejos e fez de seu corpo morada para um desconhecido. Mais uma vez despiu a sua alma a quem desejava somente seu corpo. Ela só quer ser amada.

Eu só quero ser amada.

É o que ela fala para si mesma, sussurrando baixinho para o reflexo do espelho daquele motel de quinta. Olhando para a boca já sem batom e para os olhos negros de rímel escorrido. Olhando para a sua alma desnuda na frente do espelho suado da água quente do chuveiro. Olhando para a moça afoita que se tornou. A forasteira que se aventura em corpos desconhecidos. A corajosa que desbrava céus e terras a procura do amor. A iludida que ainda acredita em amores de contos de fadas, mas que põe o pé pelas mãos em busca deles.

Ela veste o seu melhor vestido agora amarrotado e já não há que se note a essência de seu perfume. Mais uma vez os seus sonhos de encontrar alguém para vida toda são destruídos por alguém que quer apenas seu corpo. Alguém que lhe oferece uma bebida imaginando o que há por baixo de suas roupas, a alguém que no primeiro olá já imagina coisas sórdidas. Amores de bar não vingam, pensou ela. Só findam.

Eu só quero ser amada.
Diz a moça de olhos de tigres cheios de lágrimas, girando a maçaneta da porta de casa, caminhando em direção a sua cama.
Ela só quer ser amada, penso eu. Enquanto observo e compreendo que muitas mulheres vestem seus vestidos, na inocência, de encontrar algum príncipe ou apenas alguém que esteja disposto a caminhar ao lado de uma moça que conhecera em uma mesa de bar.


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2 comentários

  1. Como eu já disse: arrasou!

    Estava com muitas saudades de te ler assim, fazendo história. Terceira pessoa, narradora de cenas fortes, cenas doloridas, cenas que eu filmei a cada parágrafo e no final fiquei: poxa, mas já acabou?

    Eu gosto quando você ousa, Pâm. Você tem talento demais pra ousar sempre.

    Obrigada por esse texto!

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