Nove e meia.

As roupas sobre o chão demonstram que há amor aqui. São nove e meia e desde às dezoito que me permito ser tua. Vorazmente a tua boca me descobre sem cerimônia. Ela percorre meus caminhos recônditos desbravando meu jardim secreto. Perco-me em você e me encontro em teus meios, teus pelos, teus seios. Entre suspiros e abraços me descubro tua e minha. Minhas vontades se misturam com o teu desejo. Fundimo-nos.

Dez e meia.

Somos roupas, suor e gozo. A vontade de parar o relógio, pedir tempo ao tempo e se demorar um pouquinho mais. Somos a vida que se apequena e cabe dentro de um quarto. Somos o amor que Caetano e Chico cantam em suas canções. Somos feras famintas. Somos felinos que procuram carinho. Somos síntese. Somos paradoxo. Somos um amontoado de adjetivos que se fundem como nossos corpos. Somos lascívia. Somos paixão. Somos, por fim, amor.

Onze e quinze.

Somos beijos de boa noite. Somos olho no olho e um dorme bem. Somos cobertor caído no chão, cheiro no cangote e uma prece de que a noite se demore um pouco mais. Somos a felicidade que se desenha em nossos lábios. Somos o calor que nos esquenta em um abraço. Somos mais que pele, carne e suor. Somos nossos corações despidos um ao outro. Somos mais que roupas jogadas no cão.
Meia-noite.

E compreendemos que o amor é muito mais que o toque, o sexo e o prazer. É olhar o outro dormindo e agradecer por ter a sorte de assisti-lo. É beijar a fronte, tocar a face e perceber que o nosso mundo cabe dentro de um abraço. Amor é não saber e ainda saber. É olhar e não acreditar. É perceber que a vida tem pressa e ainda assim pedir que ela espere um pouco mais.

Fotografia: Maud Chalard.