Dia especial




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A chuva de um verão caía lá fora assanhando um pouco do calor que me castigava. Não havia mais lágrimas, pois a tua voz mansinha - de quem come quieto - tratava de balbuciar algumas piadas sem graça. Em poucas horas eu soube dos teus empreendimentos, da tua mãe que mais parece dona Benta e de teus sonhos muitos que não cabem em tua cidade. A vida parecia menos dolorosa ao ouvir a tua voz me dizendo: "a vida é mesmo assim. Há dias em que a glória vem. Há dias que ela vai." De repente a gente vai percebendo o outro. E aos poucos me vi mergulhada na tua história. A tua vida para mim era mais interessante do que os episódios de investigação criminal que me rouba as tardes de domingo. 

Das lágrimas ao riso. 

Assim me vi naquele dia: chorosa e sem expectativas. É engraçado como as pessoas têm o poder de embonitar as nossas vidas mesmo sem querer. Aquele dia o meu céu cheio de nuvens e trovões fora se transformando azul brigadeiro. Tudo o que me doía já não era mais lembrado. Tudo porque tu sentou na calçada de minha vida e me ofereceu o ombro e um pouco do teu colo. Me afagou os cabelos e disse que nenhuma dor era eterna. Me fez acreditar - mesmo eu vacilando - que dias ruins também acabam e que até com a dor nós aprendemos a viver.

Tudo é ensinamento, lição. Tu me disse. 

E eu fechando os olhos e ouvidos só pensava: mais um otimista em minha vida. E tentava desvencilhar das tuas palavras precisas e, ao mesmo tempo, dolorosas. A vida havia te ensinado um bocado. Quase quatro décadas de vida. Diferença pouca em anos, diferença gritante em experiência. Tu era a vivência que, apesar de registrar em alguns textos, pouco tenho. Tu era a sabedoria que eu precisava naquele momento. Era o abraço de mãe que confortava um pequeno e o conselho de avó ao se despedir do neto que volta à casa de seus pais. Tu me foi - aquele dia - um pouco da esperança que a vida me roubara.

Do riso à gargalhada.

Sem nenhuma pretensão além de estar ali e fazer o bem. Sem nenhum outro objetivo a não ser estender a mão e me agasalhar. A vida é mesmo uma caixinha de surpresas. Neste mundo de meudeus onde todos buscam benefícios lá estava eu com milhões de questionamentos e indagações; e você cheio de paciência e conselhos a me dar. Aquele dia eu soube que, apesar de toda a dor que carregamos, há sempre uma lição a ser aprendida.

Das lágrimas ao riso. Do riso à gargalhada. Da gargalhada à mansidão. Da mansidão aos meus dias. 

Obrigada.




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