ELA 1 X 0 EU





Ouça enquanto lê: Ed Sheeran - Photograph 

Quarta-feira, dia de futebol no clube do sortudo com quem ela divide a vida. E ela está, mais uma vez sozinha, tendo como companhia apenas a taça de vinho combinando com o bordô da armação dos seus óculos — adorava observar enquanto ela trabalhava a noite. Os dedos corriam pelo teclado como correm os jogadores atrás da bola, do toque perfeito, do cruzamento infalível e do gol de placa. Ela corria atrás do começo perfeito, da vírgula impecavelmente colocada pra gente saber a hora de respirar e não pirar. Mas eu pirava cada vez que ela marcava gol e sorria ao finalizar um texto.

Não entendo, ainda, como alguém pode preferir observar 22 marmanjos correndo atrás de um objeto redondo, debaixo da chuva que está caindo lá fora, ainda mais com as sacadas nada interessantes dos comentaristas. Contrario todos os clichês e rejeito o machismo que me é imposto pela sociedade. O único jogo que me apetece é aquele que ela faz quando quer carinho, cafuné e colo, mas não ousa abrir mão do orgulho de mulher. Egoísta que sou, não permito venda de ingressos, não aceito arquibancada ou comentarista algum. Essas partidas eu — ainda — guardo em filmes catalogados, num arquivo especial que carrega o nome dela.

No placar da nossa vida minha falta foi passível de expulsão, eu sei. Sei mais ainda que não haverá próxima partida, outro campeonato ou a FIFA pra dizer que não houve nenhuma causa justa para isso. No jogo dela só há um juiz, ou melhor, juíza. Tenho plena consciência de que nunca houve outro time que jogue tão bem com o meu quanto o dela. Não haverá. Ainda assim, aceito calado minha ausência no campo e recorro aos tais arquivos, registros dos nossos dias de glória. Liderávamos o campeonato juntos, empatados, no melhor sentido que há de se estar assim.

"FINALMENTE!", ela dizia, enquanto apagava o cigarro como quem esmaga um inseto indesejado. "Consegui terminar, até que enfim." — completa. Ela levanta e desfila, como quem acaba de ganhar a taça da copa. Olha lá, aquele sorriso me fazendo pirar novamente. Sorrio de volta e comemoro, com todo fervor que a ocasião me pede, e ofereço mais uma taça, desta vez para dois. O jogo dela terminou. a partida encerrou. Mas a nossa, ah... A nossa está só começando.


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1 comentários

  1. Veeeeeeeei! PQP que texto MARA! 😱😱 amei Gi, sem palavras para comentar 👏🏻👏🏻

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