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quarta-feira, setembro 27, 2017

Eu tenho medo de te esquecer.



O tempo, sempre traiçoeiro, corrompe nossa memória sem ao menos pedir licença. Bagunça nossas gavetas secretas, misturando lembranças que julgávamos estarem muito bem vivas e organizadas. O tempo não perdoa, meu caro.

Como era mesmo a barba dele? A voz, lembrava Cazuza ou Renato? Não, os cabelos eram do Cazuza, a voz é que lembrava Renato. Ou seria contrário? O andar era calmo? Às vezes acho que era apressado, em passos curtos. — Por vezes me pego te esquecendo um pouco, ainda que esquecer de ti seja humanamente impossível. Seria esquecer, também, de mim.

Tempo... É danado pra confundir a gente, sabe. Têm dias que acordo inverno, mesmo que o sol me bata à porta e acabe invadindo tudo pelas janelas. Tem dias que fecho as cortinas e gosto de contemplar o breu do quarto vazio. Há pouco tempo que dividia o espaço com tuas malas e teu violão. Era marrom ou branco? — Dele não me recordo. Em contrapartida, sinto gosto de brigadeiro, sendo devorado ainda quente enquanto colocávamos o papo em dia.

Dia desses pude jurar que te vi na rua, parado no semáforo dentro do carro ao lado. Esfreguei os olhos com força e, confesso, me dei uns tapas na cara julgando ser culpa do sono. Olhei novamente e o rapaz em nada lembrava teu rosto. Era possível que eu estivesse te esquecendo? Logo eu, que conheço cada traço da tua... Conhecia. Percebe? Os verbos se confundem tanto quanto as nossas lembranças. Será que aí, do outro lado, de onde sei que me observas em silêncio, também esqueces das coisas? Duvido.

A verdade é que tenho medo, sabia? Tive medo no instante em que recebi aquele telefonema, por saber que os anos seriam mais difíceis sem tua risada de menino e teu abraço de homem-urso. Tive medo quando abri a porta de casa e não foi pra te receber. Tive medo de dar partida no carro. Tive medo quando saí na rua e o sol te traía, brilhando como nunca. Tive medo de, um dia, ser como o sol e não me importar com a tua ausência enquanto brilha.

Sei que não deveria, mas tenho medo da velhice. Não pelas rugas ou pela fraqueza nos passos. Não temo perder a força ou esquecer o caminho de casa. Poderia perambular pelas ruas, poderia me esquecer de quem vejo refletida no espelho, mas nunca me perdoaria se, por um instante que fosse, eu me esquecesse de você.


O tempo não perdoa, meu caro. Por isso, te peço, me perdoe se eu — mesmo lutando com todas as minhas forças — falhar. Não é por mal. O tempo bagunça nossas gavetas secretas, misturando lembranças que julgávamos estarem muito bem vivas e organizadas. Traiçoeiro, corrompe nossa memória sem ao menos pedir licença.



quarta-feira, novembro 09, 2016

ELA 1 X 0 EU





Ouça enquanto lê: Ed Sheeran - Photograph 

Quarta-feira, dia de futebol no clube do sortudo com quem ela divide a vida. E ela está, mais uma vez sozinha, tendo como companhia apenas a taça de vinho combinando com o bordô da armação dos seus óculos — adorava observar enquanto ela trabalhava a noite. Os dedos corriam pelo teclado como correm os jogadores atrás da bola, do toque perfeito, do cruzamento infalível e do gol de placa. Ela corria atrás do começo perfeito, da vírgula impecavelmente colocada pra gente saber a hora de respirar e não pirar. Mas eu pirava cada vez que ela marcava gol e sorria ao finalizar um texto.

Não entendo, ainda, como alguém pode preferir observar 22 marmanjos correndo atrás de um objeto redondo, debaixo da chuva que está caindo lá fora, ainda mais com as sacadas nada interessantes dos comentaristas. Contrario todos os clichês e rejeito o machismo que me é imposto pela sociedade. O único jogo que me apetece é aquele que ela faz quando quer carinho, cafuné e colo, mas não ousa abrir mão do orgulho de mulher. Egoísta que sou, não permito venda de ingressos, não aceito arquibancada ou comentarista algum. Essas partidas eu — ainda — guardo em filmes catalogados, num arquivo especial que carrega o nome dela.

No placar da nossa vida minha falta foi passível de expulsão, eu sei. Sei mais ainda que não haverá próxima partida, outro campeonato ou a FIFA pra dizer que não houve nenhuma causa justa para isso. No jogo dela só há um juiz, ou melhor, juíza. Tenho plena consciência de que nunca houve outro time que jogue tão bem com o meu quanto o dela. Não haverá. Ainda assim, aceito calado minha ausência no campo e recorro aos tais arquivos, registros dos nossos dias de glória. Liderávamos o campeonato juntos, empatados, no melhor sentido que há de se estar assim.

"FINALMENTE!", ela dizia, enquanto apagava o cigarro como quem esmaga um inseto indesejado. "Consegui terminar, até que enfim." — completa. Ela levanta e desfila, como quem acaba de ganhar a taça da copa. Olha lá, aquele sorriso me fazendo pirar novamente. Sorrio de volta e comemoro, com todo fervor que a ocasião me pede, e ofereço mais uma taça, desta vez para dois. O jogo dela terminou. a partida encerrou. Mas a nossa, ah... A nossa está só começando.


domingo, outubro 04, 2015

Coragem

*Pra ouvir ao som de Ela Manô - Coragem

Quis gritar. Arrumar as malas. Bater a porta e ir. Pra onde, não sei.

Enquanto despejo minha angústia nestas palavras mal organizadas, Manô me canta aos ouvidos:

"Amor não é assim, arrumar as malas e ir embora.
Amor não foi assim, o que combinamos eu já nem sei..."

Não. Não combinamos nada disso. Não combinamos nossas brigas por nada. Não combinamos esse desencontro de ideias, de opiniões. Não combinamos silêncio. Não combinamos a falta de tato. Não combinamos distância. Não combinamos as malas feitas. Não combinamos esse adeus.

A cena é típica de um romance de baixo orçamento. A cerveja esquentando em minhas mãos. O cigarro esquentando-me a garganta, obstruída por todas as palavras que eu não disse. Engoli, sem direito de resposta. Inflamou. A porta tão fechada quanto teus ouvidos para meus questionamentos. Os cabelos tão bagunçados quanto meu peito, depois de tanto guardar. A roupa tão usada quanto as tuas desculpas.

Minhas mãos suam. Contrariam, como sempre, o vento gelado que passa pela janela entreaberta. Quis ser folha, passear por aí com o vento. Quis ser menos. Tudo menos essa na qual me transformei. Quis não me importar. Quis ser qualquer coisa que se assemelhasse à garota segura, independente, disposta e compreensiva por quem você se apaixonou. Quis ser eu novamente, mas não fui. Não deu. Não dessa vez.

Gritei. Arrumei as malas. Bati a porta e fui. Pra onde, não sei.