Diferente de todas que já vira anteriormente. Ela possuía cabelos vermelhos tão qual labaredas de uma grande fogueira. Era isso que ela me lembrava: fogueira e praia. Eu não podia desviar o meu olhar de sua mesa, acredito que todos os olhares voltavam-se para a sua direção. Sua beleza era descomunal. Em sua mesa ao lado esquerdo havia um amontoado de guardanapos que os garçons insistiam em lhe entregar, homens desejosos de sua companhia, outros lhe ofereciam bebidas, mas ela recusava com um olhar debochado cada vez que o garçom lhe apontava o interessado. A sua testa vincada em desaprovação e os seus lábios vermelhos escarlate franziam-se, ela simplesmente os ignorava, sem dó, piedade ou qualquer outro sentimento.

E eu só consiga admirá-la e pensava que se eu tivesse qualquer chance também mandaria algum bilhete lhe oferecendo uma bebida, chamando-a para sentar-se a minha mesa e conversarmos. Aquele lance de preliminares. Mas eu, Afonso, sequer tenho boa dicção, nervoso então as palavras não saem devido à minha patética gagueira. Resta-me apenas fitá-la enquanto me é possível. A moça dos olhos amendoados, cabelo cor de fogo e a pele mais perfeita que eu já vira em minha vida. Ela cruzava e descruzava as pernas e isso causava-me tremores dentro do estômago, podia sentir claramente. Um vai e vem infinito de sentimentos misturados dentro de mim.

Enquanto eu a olhava alisar suavemente o copo de whisky que tomava mordendo seus lábios - ela devia saber que isso é cruel para homens - um garçom aproximou-se de mim e disse que a moça da mesa 44 estava me oferecendo uma bebida. Não dei atenção. Olhava para aqueles lábios carnudos que me chamavam, assim eu queria acreditar, e mal ouvia o que o garçom insistia em dizer. Ele, por sua vez, disse que eu deveria aceitar a bebida uma vez que podia notar que a devorava com os olhos. Voltei-me a atenção completa a fim de entender o que ele dissera.

- A moça dos cabelos vermelhos? - Disse com um olhar desconfiado.
- Sim. Ela mesma. Posso dizer que não aceita?
Levantei-me de súbito e sem responder aproximei-me da mesa. Ela sorriu e disse:
- Pensei que não aceitaria meu convite.

Sentei ao seu lado tentando manter uma pose indiferente. Eu a comia com os olhos e ela se deliciava ao notar isso. Tomei-a pela mão, beijando-a demoradamente. Seus dedos já souberam escrever meus lábios daí então.

- Preciso de alguém que acenda o meu cigarro. Ou a mim. - ela falava enquanto passava distraidamente o indicador nas bordas do copo.

A impressão que tive foi a de que cada nó de veia existente em meu corpo soluçou ao mesmo tempo. A música ambiente me auxiliava a imaginá-la sendo minha. Eu precisava prová-la. Resolvi investir sem nenhuma preocupação com os seguros.

- Coleciono isqueiros, bonita.

Estabelecimentos como esse não trazem anéis. O destino não era comum. Conhecemos a doçura de comungar com o nada enquanto nossos gestos passaram a ser controlados por vontades indiscretas e dominadoras. Céus, como ela me tira do sério! Cochichos alheios, tragos, goles, o garçom comemorando minha vitória. Intimidades ridículas. Rodeios desnecessários. Minha visão ia sendo maltratada e eu já imaginava nossa cama bagunçada no dia seguinte. A noite ia amanhecendo nos olhos dela e eu não deixava de fazer poesias escrotas com tudo o que eu via rimar ali dentro. Suas pupilas dilatadas retratavam a imensidão do meu vício mais recente: fazer dela minha morada. Por instantes, que fossem. O tempo de uma canção. Um embrenhar de acordes e notas desafinadas. Toque de todas as cordas.

- Mais uma dose? - ela me perguntava. E eu bebia para que acontecesse qualquer coisa. Me protegia da loucura. Inventava uma desculpa para não ser quem eu era.

Ela levantou-se e foi ao banheiro. Olhei milimetricamente o desenho do seu corpo esguio passeando por entre as mesas. Voltou-se para mim e lançou um sem fim de sacanagens no ar. Eu já havia vacilado, infelizmente. Em cinco minutos o garçom chega até mim e entrega um bilhete:
"Você tem a vida inteira, baby
Pra me devorar.

Lucélia."
Ela não voltou. Lucélia. Saí dali inalando putas e fumos. O coração fodia todo o meu trabalho.
Em companhia da doce Jaya.