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terça-feira, setembro 22, 2015

Vamos ter um bebê.



Eu presenciei várias mulheres descobrirem que seriam mães, moça. Algumas sonhavam ardentemente com isso e outras não imaginavam, não esperavam, e hoje são mães incríveis. Não tenha medo de abraçar seu destino, de acolher em teus braços essa dádiva que virá. Aproveite cada chegada de mês, sinta cada batidinha do coração, deixe o amor pulsar dentro de ti. É uma transição mágica o de ser filha e, de repente, se ver no corpo de uma mãe. Aos poucos a gente vê a menina que brincava no balanço de sua casa ceder espaço a uma nova criança.

Os seus jeans não mais caberão, moça. Mas não se apoquente, porque você descobrirá uma nova forma de enxergar as suas medidas. A vida se expandirá. Tudo se agigantará. E não me refiro somente ao corpo, digo isso quanto aos sentimentos que crescerão, que os espaços (todos eles) se transformarão para receber aquele que personificará a palavra amor. A gente acha, sempre acha, que sentimentos são intangíveis - em sua literalidade realmente são - mas vemos ao tocar na pele, aninhar no colo, que a física sempre estivera errada. Sentimentos podem ser tocados. Amados. Vividos.

É, moça. Seus jeans passarão a não caber mais. Eu repito. Mas não somente eles que não caberão. Faltará espaço para tanto sentimento e você se sentirá transbordando. A vida é realmente fantástica. A gente de repente ama na velocidade da luz. Ama eternamente alguém que ainda não conhecemos, mas  que sabemos que trará consigo alguns traços nossos. Que levará por onde for os nossos olhos, ou quem sabe os nossos lábios, ou quem sabe. Quem sabe, né? 

A vida se faz dentro de você, ocupa os espaços que antes eram vazios e não se trata de uma metáfora. Olhe-se diante do espelho e saiba que hoje o amor tem uma maneira nova de te despertar todas as manhãs, os chutes em sua barriga é apenas uma forma nova de se ouvir 'eu te amo'. E ame.

E ame como se fosse a (única) primeira vez.
E será.

terça-feira, maio 21, 2013

O quarto dele.





A janela não denuncia que o Sol há muito se aproxima, mas os pássaros insistem em avisar que o dia já está nascendo. Olho para o relógio sobre a cabeceira e vejo os ponteiros se movimentarem preguiçosamente e acredito, talvez, que ele seja nosso cúmplice e queira estender um pouco mais o nosso encontro. Tudo que me cerca é de alguma forma familiar, apesar de não ter objetos meus, sinto que até o travesseiro se molda ao meu desejo de ficar. A respiração dele é tão calma, tão serena que me leva a imaginar o que se passa em seus sonhos. Não desejo que ele acorde, não naquele momento, quero apenas observá-lo. E assim faço.


O dia, aos poucos, anuncia sua chegada pelas frestas da janela sem persianas do quarto dele. Estou sonolenta e perdida em meus pensamentos. Queria, de alguma forma, parar de existir para o mundo e viver somente aquele instante. Como se pudesse envolver nossas vidas em uma redoma de vidro e recriar as nossas vidas ali. Sem trânsito, sem trabalho, sem os estudos que me deixam tão distante dele. Só queria. 

Olhando-o ali tão indefeso e quieto, sinto que poderia observá-lo apenas por horas a fio. Deixar os seus braços envoltos a minha cintura, naquele abraço leve e inocente que somente ele tem a me oferecer. Não há como não amar aquele menino de sorriso largo e coração grandioso. Não há como não querer que sua mão esteja estendida para me ajudar atravessar a rua. E em meio a tantos desejos e sonhos eu só quero que ele continue ali: deitado e indefeso. À espera de um mundo ao qual somente nós pertencemos.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Letícia, feliz aniversário.

Letícia recordava-se de seu último aniversário onde recebera gérberas amarelas. E sentada em frente ao seu computador devaneava sobre o ano que passara rapidamente. Usava ainda roupa social mesmo odiando, mas o seu salto quinze fora substituindo por um scarpin um pouco mais baixo. estava cansada hoje, queria mesmo era aproveitar o sol dessa quarta-feira ardente, sonhava com seu biquini e suas sandálias havaianas que estavam debaixo de sua cama, mas infelizmente teria que cumprir o expediente normal.

Pensava: - Por que não é decretado feriados em nossos aniversários? Sorriu em seguida. E pensou que poderia ser pior, no anterior tivera uma reunião em que sua vida profissional estava em jogo e como presente de aniversário alcançou sua meta e teve seu projeto aprovado. Lembrou-se de toda a tensão que sofrera durante semanas elaborando seus resumos e apresentação. Tudo compensado. Respirou com alegria.

Deixando sua caneta cair no chão fixou seus olhos sobre o antigo porta-retrato onde eles estiveram por vários anos. Seus olhos encheram de lágrimas, não de tristeza, mas sim de saudade. Uma saudade macia e doce. O lugar fora substituido por uma nova foto, Letícia e Janis Joplin - sua gatinha persa. Embora não houvesse mais diante dos seus olhos sua imagem, ela podia vê-lo perfeitamente todas as vezes em que fechava seus olhos. Essas lembranças massageavam seu coração ela adorava cultivá-las.

Antes de levantar-se viu que sua caixa de e-mails estava piscara. Sentiu o seu coração subir até a boca e suas pernas trêmula. Sim. Ele era o destinatário. No título da mensagem dizia: Oi boneca.
Pensou duas vezes antes de abrir, mas corajosamente clicou sobre o título. O e-mail abriu em seguida as letras por um instante embararalhou-se tamanha a sua angústia.

"Menina,
Tu não sabes como essa semana arrastou-se, queria muito que chegasse logo o teu dia para te presentear. Contudo, fiquei cismado se tu me aceitarias novamente. Então, reservei-me a enviar-te um e-mail. Então. Lá vai. Não conseguirei expressar tudo o que há aqui dentro. Mas posso dizer-te que és especial deveras, mas isso somente não basta. Desculpa as falhas, os erros. É que talvez eu não esteja pronto para dizer o que realmente sinto por ti. Mas saiba que é doce. É intenso. É vivo. E queria dizer que apesar de ter me omitido no ano anterior, tu estivera cá dentro. Tu és alguém cujo nascimento vale comemorar todos os dias. Parabéns pela pessoa que és.
Obrigado por me fazer sentir humano e amado.

João Henrique.

Letícia, após ter lido deletou o e-mail, sim, ela gostou. Mas preferiu deletar e deixar somente gravado em seu coração e com toda certeza estará para sempre. Gravado tão qual uma tatuagem.
Para Quel, uma doce amiga. Feliz aniversário!

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Lucélia.

Diferente de todas que já vira anteriormente. Ela possuía cabelos vermelhos tão qual labaredas de uma grande fogueira. Era isso que ela me lembrava: fogueira e praia. Eu não podia desviar o meu olhar de sua mesa, acredito que todos os olhares voltavam-se para a sua direção. Sua beleza era descomunal. Em sua mesa ao lado esquerdo havia um amontoado de guardanapos que os garçons insistiam em lhe entregar, homens desejosos de sua companhia, outros lhe ofereciam bebidas, mas ela recusava com um olhar debochado cada vez que o garçom lhe apontava o interessado. A sua testa vincada em desaprovação e os seus lábios vermelhos escarlate franziam-se, ela simplesmente os ignorava, sem dó, piedade ou qualquer outro sentimento.

E eu só consiga admirá-la e pensava que se eu tivesse qualquer chance também mandaria algum bilhete lhe oferecendo uma bebida, chamando-a para sentar-se a minha mesa e conversarmos. Aquele lance de preliminares. Mas eu, Afonso, sequer tenho boa dicção, nervoso então as palavras não saem devido à minha patética gagueira. Resta-me apenas fitá-la enquanto me é possível. A moça dos olhos amendoados, cabelo cor de fogo e a pele mais perfeita que eu já vira em minha vida. Ela cruzava e descruzava as pernas e isso causava-me tremores dentro do estômago, podia sentir claramente. Um vai e vem infinito de sentimentos misturados dentro de mim.

Enquanto eu a olhava alisar suavemente o copo de whisky que tomava mordendo seus lábios - ela devia saber que isso é cruel para homens - um garçom aproximou-se de mim e disse que a moça da mesa 44 estava me oferecendo uma bebida. Não dei atenção. Olhava para aqueles lábios carnudos que me chamavam, assim eu queria acreditar, e mal ouvia o que o garçom insistia em dizer. Ele, por sua vez, disse que eu deveria aceitar a bebida uma vez que podia notar que a devorava com os olhos. Voltei-me a atenção completa a fim de entender o que ele dissera.

- A moça dos cabelos vermelhos? - Disse com um olhar desconfiado.
- Sim. Ela mesma. Posso dizer que não aceita?
Levantei-me de súbito e sem responder aproximei-me da mesa. Ela sorriu e disse:
- Pensei que não aceitaria meu convite.

Sentei ao seu lado tentando manter uma pose indiferente. Eu a comia com os olhos e ela se deliciava ao notar isso. Tomei-a pela mão, beijando-a demoradamente. Seus dedos já souberam escrever meus lábios daí então.

- Preciso de alguém que acenda o meu cigarro. Ou a mim. - ela falava enquanto passava distraidamente o indicador nas bordas do copo.

A impressão que tive foi a de que cada nó de veia existente em meu corpo soluçou ao mesmo tempo. A música ambiente me auxiliava a imaginá-la sendo minha. Eu precisava prová-la. Resolvi investir sem nenhuma preocupação com os seguros.

- Coleciono isqueiros, bonita.

Estabelecimentos como esse não trazem anéis. O destino não era comum. Conhecemos a doçura de comungar com o nada enquanto nossos gestos passaram a ser controlados por vontades indiscretas e dominadoras. Céus, como ela me tira do sério! Cochichos alheios, tragos, goles, o garçom comemorando minha vitória. Intimidades ridículas. Rodeios desnecessários. Minha visão ia sendo maltratada e eu já imaginava nossa cama bagunçada no dia seguinte. A noite ia amanhecendo nos olhos dela e eu não deixava de fazer poesias escrotas com tudo o que eu via rimar ali dentro. Suas pupilas dilatadas retratavam a imensidão do meu vício mais recente: fazer dela minha morada. Por instantes, que fossem. O tempo de uma canção. Um embrenhar de acordes e notas desafinadas. Toque de todas as cordas.

- Mais uma dose? - ela me perguntava. E eu bebia para que acontecesse qualquer coisa. Me protegia da loucura. Inventava uma desculpa para não ser quem eu era.

Ela levantou-se e foi ao banheiro. Olhei milimetricamente o desenho do seu corpo esguio passeando por entre as mesas. Voltou-se para mim e lançou um sem fim de sacanagens no ar. Eu já havia vacilado, infelizmente. Em cinco minutos o garçom chega até mim e entrega um bilhete:
"Você tem a vida inteira, baby
Pra me devorar.

Lucélia."
Ela não voltou. Lucélia. Saí dali inalando putas e fumos. O coração fodia todo o meu trabalho.
Em companhia da doce Jaya.