quarta-feira, janeiro 30, 2013

233 sonhos;

"É tão estranho os bons morrem jovens." 
Legião Urbana


Estranho é ouvir essa música tocar incessantemente na "radiola" aqui dentro da cabeça. Sinto uma melancolia muito grande tomar conta de mim, porque sei o que é perder alguém que se ama. Nos últimos quatro anos perdi pessoas de forma tão abrupta quanto. Jovens que tinham uma vida inteira pela frente. Que teciam sonhos e planejavam um futuro de grandes vitórias, mas o amanhã não veio e sequer disse o motivo. Apenas não quis aparecer. A questão não é compadecer somente porque é "politicamente correto" isso, é que eu compartilho da dor. E sei que não haverá um sorriso ao chegar em casa, não haverá uma ligação combinando um cinema, não haverá um sms dizendo: "eu te amo", não haverá uma colação de grau, não haverá um anel de formatura. Não haverá.

O Brasil chora nos olhos do pai de família que assistindo ao Esporte Espetacular diz não acreditar no que vê. Chora nos olhos da mãe que tem filhos adolescentes e os espera todos os finais de semana depois de uma balada. Chora nos olhos dos avôs que criam seus netos tentando corrigir os erros que cometeram com seus filhos. Chora nos olhos dos irmãos que não souberam conviver com as suas diferenças e viviam em pé de guerra. Chora nos olhos dos amigos que não puderam dizer adeus. Chora nos meus olhos ao lembrar o quanto dói amar alguém que já não se pode abraçar.

Os meus olhos choraram e choram, não porque eu seja a mais sentimental, não porque é correto ser "humana" nessas horas. Chora porque algo de mim morre cada vez que eu leio uma notícia sobre as vítimas desse acidente, quando eu também tenho vontade de fazer um mestrado, quando eu também tenho pretensão de ser doutora em alguma coisa, quando a minha mãe também é jovem e poderia estar lá, quando os jornalistas usam de deduções para vender o seu "peixe", quando leio depoimentos daqueles que se salvaram, quando leio postagens àqueles que morreram.

E choro em saber que daqui 2 ou 3 meses para nós essas vítimas serão apenas estatística, história, enquanto que para os familiares e amigos serão um pedaço a menos em seus corações.

quinta-feira, novembro 08, 2012

Dormência


“Eu sei que há algo sagrado e reservado
E recebido somente por mim.”
Semisonic.



Essa dormência aqui dentro é boa, moço. Porque ela está amarrada em uma vontade doce de abraçar o mundo, desde que tu vieste aqui pintar arco-íris em meu coração. Existe uma alegria cá dentro impossível de não sentir. Não há como evitar. Não há como não querer. Porque ela faz com que milhões de borboletas dancem em meu estômago ao som de bateria de escola de samba. Porque a boca seca toda vez que tu vens carinhosamente me contar do teu dia e em seguida ouve, pacientemente, o meu.

É coisa pouca, moço. É coisa pequena. Mas penso que a vida é construída dessas pequenas miudezas que ninguém comenta. Essas coisas “pequenas” que nenhum jornal tem vontade de noticiar. Como quando alguém ajuda um velhinho atravessar a rua, alguém estende a mão a um irmão de rua ou quando a lagarta no fim do seu ciclo de transformação sai do casulo e vira borboleta. Tudo isso é tão lindo e ninguém noticia, não é?  Só que eu vejo, moço. Eu sinto. De uma forma tão desesperada cada gotinha de amor espalhada por aí. Absorvo tudo.

Acho que ninguém vai entender, porque eu mesma não entendo, como tudo está tão agitado e quieto ao mesmo tempo dentro de mim. Como eu não consigo pensar em você com a constância que desejaria e ainda assim sei que tu estás cá dentro guardadinho. Como você não vem a minha mente enquanto deito a cabeça sobre o travesseiro para dormir e ainda assim sei estás alojando-se dentro de mim. E embora haja tanta confusão dentro de mim, eu vou caminhando devagarinho, apreciando cada gesto, porque eu sei que há algo sagrado e reservado, e recebido somente por mim.

quarta-feira, outubro 10, 2012

Seu gosto.



Eu lembro o seu gosto em minha boca, guri. Da mesma forma que me lembro daquele seu tênis horroroso e surrado vindo em minha direção enquanto eu estava sentada naquela quadra poliesportiva, dos seus olhos observando-me brincar com a fitinha comprada na última romaria e o embolo de sua voz ao tentar puxar conversa. Eu lembro. De você enlouquecido com a minha calça heavy metal e o meu cabelo Black Power. 

De como você me apoiou quando disse que não conseguia levantar, pois minhas pernas estavam dormentes devido ao tempo em que estive sentada no chão. Lembro da sua cara super interessada com todas as minhas falácias, com o teu olhar atento ao me ouvir dizer que eu era poetisa e a tua insistência para que eu declamasse algum poema. E você venceu. E lá estava eu recitando Soneto de Fidelidade, de Vinícius de Moraes, e você sorriu e beijou minha testa dizendo: “me deixa cuidar de você?” Deixei.

Lembro de você me acordar às 08h da manhã de um domingo para que eu pudesse assistir uma apresentação de fantoches, de você me estender às mãos enquanto caminhávamos em direção a praça, de você me apresentar uma constelação inteira em seus olhos e ver estrelas caindo em um piscar de cílios. Do beijo de fogos de artifícios que até então desconhecia. De dependurar a minha vida em teus longos braços enquanto sentados na calçada você tecia sonhos de pop star. De sonhar um futuro que há nós não pertencia e ainda assim saltar em direção ao abismo esperando que tu viesses atrás.

Eu lembro o seu gosto em minha boca. Às vezes em que eu desejei contar os meses contigo, que o calendário voltasse aos dias felizes e não marcasse jamais o final do mês. Que o mês de Setembro voltasse a ser bonito e não se tornasse para mim um Agosto como Caio escreveu. Que o teu corpo dançasse com o meu debaixo de um luar de Lua Cheia e esplendorosa, que ela iluminasse todos os meus poros e que trôpegos de amor nos déssemos a viver desmedidamente. Que o meu eu te amo fosse capaz de te convencer a ficar. Hoje eu lembro. Só lembro.

terça-feira, outubro 02, 2012

Do amor e suas bobagens.


Ouvi dizer que as praias de Moçambique são belíssimas. Ela suspira enquanto continua a frase: - você poderia escrever cartas e colocar em garrafas jogando-as no mar ou então pode fazer algo mais direcionado, enviar um cartão-postal para seus amigos, de modo que eles pensem: “cara, esse moleque é doido, vai ser comido por leões.” É. Todo mundo acha que o fato de você estar na África te coloca em uma Savana, assim como todos acreditam que morar em Brasília te faz vizinho do Presidente. E então eu tomei uma dose de vodca. E sorri. Não dava para dizer que não iria enviar cartão-postal a ninguém, eu não era dado a manifestações de afeto. Achava aquilo tudo muito falso e sentimentalóide.

– Sim. As praias de Moçambique são lindas. Por fim falei. E enquanto ela acendia mais um cigarro eu pensei: “cara, como é sexy o jeito que ela acende o cigarro.” Estávamos mais ou menos em paz até então. E eu previa que a conversa humorada duraria poucos minutos, tempestade a vista era o que denunciava a cor de seus olhos. Eu lembrava de Alceu Valença, de Zé Ramalho e recordava o movimento estudantil e como ela era bonita quando abraçava alguma causa. Que ela tomava café como alguém que estivera há 3 dias sem tomar água no deserto do Saara. Que por vezes suas unhas escorriam sangue enquanto conversava nervosamente com alguém. E que ela (...) poxa, ela tinha um olho verde e outro castanho.

– Veja se as conchas da África são bonitas e... – Eu não entendia sequer uma palavra. Ela tinha covinha apenas na bochecha esquerda e uma pinta acima dos lábios estilo Marylin Monroe. E meu coração estava batendo, como diz a música, zabumba bumba esquisito dentro do peito. E embora houvesse sinais para ficar. A cabeça, comandante geral, apressou-me os passos e sem dar tempo ao coração agir “desferiu-lhe” em sua testa um beijo de adeus. Afetuoso. Não o suficiente para lhe dizer que eu era seu.

domingo, setembro 30, 2012

Adeus você.

Por favor, não me olhe com essa cara. Eu te imploro. Me dói um bom bocado te ver com chuva nos olhos, garoto. E me retarda um pouco, vês? Me deixa ir o quanto antes... eu preciso terminar de recolher as minhas coisas, mas ver você tão miúdo desse jeito me corta o coração. Você realmente não se lembra de tudo que você me disse ontem? Pois é, eu ponderei e concordei com todas as linhas atropeladas que saíram da tua boca chorosa. Então eu decidi recolher todos os meus pedaços e recomeçar no meu mundinho, na minha zona de conforto. Eu ‘tô levando tudo de mim, que é pra não ter razões pra chorar. Vai passar, talvez. Por favor. Me deixa ir. Deixa eu passar por essa porta. Entendo a tua raiva, por favor. Não pensa que vou por não te amar, mas eu realmente preciso ir. Sair dessa vida de mendigar amores.

Eu também acho que não deveria acabar dessa forma, mas ouvi dizer – não me recordo onde -, que alguns amores são bonitos simplesmente pelo fato de terem que acabar. E sabe? Eu concordo com isso. Ninguém lembraria de Romeu e Julieta se eles tivesse ficado juntos e constituído uma família, Titanic não teria sido um sucesso de bilheteria se o Jack não tivesse morrido também. A despedida sempre é bonita, beibe. E muitas vezes é necessária. Estou levando minhas coisas, para que tu não te apegues a mim. Me deixa ir. Enquanto ainda há um pouco de dignidade nesse relacionamento, enquanto podemos olhar um para o outro e dizer que valeu a pena. Só me deixe ir.



Em parceria com a bonita, Mafê.

quarta-feira, setembro 26, 2012

A culpa é?

A Culpa, realmente, é das Estrelas. Terminei de ler o livro ontem para uma discussão literária que participo no face, e não muito diferente dos outros eu também chorei. Não porque o livro fosse realmente muito triste. Porque não é. Ou é? Mas eu vejo apenas a vida “poetizada” por assim dizer. Quantas pessoas apenas morrem e viram névoa em nossas mentes até, por fim, simplesmente dissipar. Eu tive experiências dolorosas ao perder algu
ém querido. E enquanto eu lia um capítulo eu lembrei de mim, deitada com o cabeça afundada no travesseiro para abafar o meu choro. Sim! Aquele choro que você quer gritar, ou melhor, que você grita junto. É, não chorei exatamente por causa do livro. Chorei porque me arrancaram assim, do nada, pessoas que eu amava muito. Se você nunca perdeu alguém querido não sabe o que é não poder mais abraçar, não poder contar uma novidade. E eu fi
co pensando como a nossa “existencialidade” é tão efêmera. Nossa vida é água colhida pelas mãos que escorre pelos dedos em instantes. Ninguém eterniza ninguém. Você pode dizer que a pessoa ficará viva em seu coração. Eu já disse isso. Confesso. E realmente não somos “deuses” para manter ninguém vivo em nós, é impossível. A pessoa morreu. Morreu. A gente não lembra, sério. A não ser que sintamos alguma fragrância, estejamos em algum lugar que era comum aos dois, mas fora isso não lembramos. A própria memória trata de imitar a vida e mata a pessoa em nós também. 


Sinceramente. Eu choro hoje. De dor.