Ouvi dizer que as praias de Moçambique são belíssimas. Ela suspira enquanto continua a frase: - você poderia escrever cartas e colocar em garrafas jogando-as no mar ou então pode fazer algo mais direcionado, enviar um cartão-postal para seus amigos, de modo que eles pensem: “cara, esse moleque é doido, vai ser comido por leões.” É. Todo mundo acha que o fato de você estar na África te coloca em uma Savana, assim como todos acreditam que morar em Brasília te faz vizinho do Presidente. E então eu tomei uma dose de vodca. E sorri. Não dava para dizer que não iria enviar cartão-postal a ninguém, eu não era dado a manifestações de afeto. Achava aquilo tudo muito falso e sentimentalóide.

– Sim. As praias de Moçambique são lindas. Por fim falei. E enquanto ela acendia mais um cigarro eu pensei: “cara, como é sexy o jeito que ela acende o cigarro.” Estávamos mais ou menos em paz até então. E eu previa que a conversa humorada duraria poucos minutos, tempestade a vista era o que denunciava a cor de seus olhos. Eu lembrava de Alceu Valença, de Zé Ramalho e recordava o movimento estudantil e como ela era bonita quando abraçava alguma causa. Que ela tomava café como alguém que estivera há 3 dias sem tomar água no deserto do Saara. Que por vezes suas unhas escorriam sangue enquanto conversava nervosamente com alguém. E que ela (...) poxa, ela tinha um olho verde e outro castanho.

– Veja se as conchas da África são bonitas e... – Eu não entendia sequer uma palavra. Ela tinha covinha apenas na bochecha esquerda e uma pinta acima dos lábios estilo Marylin Monroe. E meu coração estava batendo, como diz a música, zabumba bumba esquisito dentro do peito. E embora houvesse sinais para ficar. A cabeça, comandante geral, apressou-me os passos e sem dar tempo ao coração agir “desferiu-lhe” em sua testa um beijo de adeus. Afetuoso. Não o suficiente para lhe dizer que eu era seu.