Eu lembro o seu gosto em minha boca, guri. Da mesma forma que me lembro daquele seu tênis horroroso e surrado vindo em minha direção enquanto eu estava sentada naquela quadra poliesportiva, dos seus olhos observando-me brincar com a fitinha comprada na última romaria e o embolo de sua voz ao tentar puxar conversa. Eu lembro. De você enlouquecido com a minha calça heavy metal e o meu cabelo Black Power. 

De como você me apoiou quando disse que não conseguia levantar, pois minhas pernas estavam dormentes devido ao tempo em que estive sentada no chão. Lembro da sua cara super interessada com todas as minhas falácias, com o teu olhar atento ao me ouvir dizer que eu era poetisa e a tua insistência para que eu declamasse algum poema. E você venceu. E lá estava eu recitando Soneto de Fidelidade, de Vinícius de Moraes, e você sorriu e beijou minha testa dizendo: “me deixa cuidar de você?” Deixei.

Lembro de você me acordar às 08h da manhã de um domingo para que eu pudesse assistir uma apresentação de fantoches, de você me estender às mãos enquanto caminhávamos em direção a praça, de você me apresentar uma constelação inteira em seus olhos e ver estrelas caindo em um piscar de cílios. Do beijo de fogos de artifícios que até então desconhecia. De dependurar a minha vida em teus longos braços enquanto sentados na calçada você tecia sonhos de pop star. De sonhar um futuro que há nós não pertencia e ainda assim saltar em direção ao abismo esperando que tu viesses atrás.

Eu lembro o seu gosto em minha boca. Às vezes em que eu desejei contar os meses contigo, que o calendário voltasse aos dias felizes e não marcasse jamais o final do mês. Que o mês de Setembro voltasse a ser bonito e não se tornasse para mim um Agosto como Caio escreveu. Que o teu corpo dançasse com o meu debaixo de um luar de Lua Cheia e esplendorosa, que ela iluminasse todos os meus poros e que trôpegos de amor nos déssemos a viver desmedidamente. Que o meu eu te amo fosse capaz de te convencer a ficar. Hoje eu lembro. Só lembro.