Esse é meu terceiro cigarro em menos de 4 horas. Eu sei que você diria para mim: “você acha isso bonito?” Eu parei de fumar desde que te conheci, porque eu precisava te impressionar. E você me achava inconseqüente. Aprendi a beber socialmente, porque as minhas doses de tequila te assustavam. Aprendi a conter meu riso, a falar mais baixo, a ser mais dama. E você dizia: “és diamante, doce.” E eu me deixei ser moldada, por tuas mãos. Porque era necessário ser tua, porque você me falou de astronomia e me ensinou que a vida era curta, e você aprendeu a ser imprudente comigo. E eu deixava as minhas coisas espalhadas pela tua casa, você aprendeu a ser desorganizado comigo, eu te implicava com o cabelo arrumado bagunçando-o com as minhas mãos enquanto fazíamos brigas de travesseiro.
E por que você foi tão idiota a ponto de partir?
Eu ignoro a placa que diz: “é proibido sentar.” Porque eu preciso sentir o vento batendo em meu rosto neste lugar. E eu não entendo o motivo de você ter me deixado assim. Algumas pessoas passam e olham assustadas, devem pensar que eu vou pular. Mas eu só desejo ficar com os meus pés dependurados aqui nessa cerca. E ouvir o som do mar cantando, aquelas ondas que batem nas pedras. E eu me lembro de você dançando comigo na chuva porque eu pedi e você usava terno e acabava de vir de uma audiência, éramos tão cúmplices. E todas as loucuras que eu impunha você aceitava, mesmo com toda minha loucura.
E eu vou pensando essas coisas aqui, vendo a água que é escura. Talvez haja um buraco aí embaixo. Igual o que sinto agora dentro de mim. Por que você me deixou? Seu idiota.
E eu fico imaginando se devo ou não pular. Assim como você fez. Deixando-me aqui, somente com a dor. Você foi muito egoísta em me deixar aqui, sozinha, com frio. Egoísta por tentar acabar com a dor em você, infligindo-me uma maior. Estúpido. E sempre que me perguntam porque eu bebo e fumo tanto digo meu namorado terminou comigo, porque eu não consigo simplesmente aceitar que você se matou.
segunda-feira, janeiro 04, 2010
(...)
sábado, janeiro 02, 2010
Serafim;
Ele não era anjo – pensou. E as suas lágrimas lavavam o sangue de sua bochecha, de um vermelho que não remetia a paixão. Era dor. E ela não entendia o porquê daquela situação, o que lhe causara o que tinha feito para que o amor tivesse se tornado fúria. Não quis se aproximar. E antes de sair da cozinha disse: - É injusto o que está fazendo comigo. Eu sempre quis o teu bem, te fazer feliz com meus gestos, quis te amar. E eu não sei o que houve, qual deslize cometi e você me vem ferir. E ele nada disse. E um último golpe desferiu na moça de olhos amendoados, acertando-lhe o coração – aquele que ela o depositara com tanto cuidado e ele sentiu. Sentiu que as suas pernas ficaram trêmulas, que estava sufocando, a cabeça começou a girar como uma labirintite aguda e sentia o gosto do sangue nos lábios e a moça com os olhos arregalados olhava-o e ele não entendia porque estava sentindo aquilo e ela lhe disse: - No coração, bonito, havia apenas você.
sexta-feira, janeiro 01, 2010
Fechando o ano.
Todos fazem promessas e mais promessas. Alguns arriscam em dizer que serão pessoas melhores e até se esforçam para que isso aconteça. Eu, porém, apenas digo: errarei mais do que errei esse ano. E cantarei aquela canção do Zeca Pagodinho: “deixa a vida me levar, vida leva eu.” Porque eu sou do tipo que não cumpre promessas, que é inconstante ao extremo e que não leva ao pé da letra juras. E então eu acho graça toda essa crendice de que se eu usar uma determinada cor de roupa atrairá bons fluídos. Aquele lance do amarelo-dinheiro, laranja-alegria é tudo mentira. Confesso que em 2006 eu usei rosa e pra quem não sabe é a cor do romance. Enfim, até que encontrei o romance só que o cara era um crápula e definitivamente eu apaguei 2006 da minha mente. Tudo bem, esse lance da cor pode ser considerada uma meia-verdade embora eu continue não acreditando.
Esse ano eu não prometi nada a ninguém. Talvez tenha feito pequenas promessas – e tenha esquecido elas, claro. Não passei em nenhum concurso, não me esforcei para passar e nem fui chamada nos que passei ano passado. Escrevi muito. Comecei a escrever três livros e estou com uma ideia de um quarto, mas nunca consigo terminá-los. Fiz mais blogs do que deveria e tenho condições de cuidar. Fiz vários amigos. Conheci pessoas maravilhosas na internet e fora dela. Namorei – Terminei - Namorei – Terminei – Er...então. Magoei muita gente, me magoaram bastante. E não coloco isso em balança alguma, assumo os meus atos e erros. Briguei muito, me decepcionei, decepcionei muita gente. Pedi desculpas, fiquei calada. Comprei vários livros. Deixei alguns embalados em minha prateleira. Li 12 horas sem parar um Best-seller aí – que dou um doce se alguém adivinhar qual é. Perdi um primo-irmão e o meu coração dói só de lembrar isso. Porque eu o perdi para sempre, entende.
E em 2010 eu prometo ser mais doce e severa. Não esperar tanto das pessoas e não me doar mais do que o necessário. Estudar um pouco mais, afinal pretendo usar meu diploma para algo. Estudar música. Ler um pouco menos. Dar mais atenção a minha família. E quem sabe dar uma nova chance ao meu coração. Mas como eu disse no início eu não sou boa de cumprir promessas, então.
Feliz 2010 a todos.
quinta-feira, dezembro 31, 2009
Poli.


Olhe. Já te impliquei tanto, peguei tuas coisas sem pedir emprestadas, te li os diários que me dizia: odiar. E chorei. Chorei por saber que eu te era tão insuportável. Daí em diante eu lembrei que costumávamos tomar banho de mangueira juntas, que a gente brincava de boneca, polícia e ladrão, que a gente era cúmplice, naquela época de 8 anos até os 10. E então, você me disse: “eu não gosto de suas festinhas, de seus namoradinhos, me deixe em paz”. E eu te achava tão antipática, e odiava meu pai dizer: se a Poli for, você pode ir. E eu já começava a soluçar e bater o pé firme, pois sabia que você não iria. Mas a gente cresceu, sabe? E começamos a dividir segredos e eu você me encobria o namoro, haha. E eu te amei tanto desde então. Porque nós começamos a pertencer uma a outra. E hoje, quando a gente confidencia as coisas sente na pele uma da outra, entende?
E hoje eu quis dizer que nem importo que você me acorde cantando às 03, 05 ou 06 da manhã, desde que você cante. E sabe de uma coisa, eu te amo mesmo.
Da sua irmã desmiolada,
Pâmela.
quarta-feira, dezembro 30, 2009
Aquela caixa;
E sabe, doçura, quando eu abri aquela caixa e vi todos os nossos pertences e tudo aquilo que conquistamos nos últimos tempos que nos pertencemos pensei que tudo havia sido em vão. Porque você quis assim. E então os meus olhos secaram tal qual o deserto do Saara, sem pretensão alguma de voltar a chover. Engoli seco o meu orgulho e levantei-me em direção a porta da cozinha. Assim que me aproximei da janela os avistei, vestiam-se de laranja e corriam de um lado a outro da avenida enquanto o caminhão andava lentamente esperando-os. Levantavam sacolas, sacos plásticos azuis e pretos e então corri até eles e ofereci-lhes o nosso pequeno tesouro. Um mundo que vivíamos outrora.
E uma moça simpática e bonita, mesmo debaixo daquele uniforme, disse-me que não levaria. E eu tentei convencê-la, mas ela mostrou-se relutante. E eu cedi. Dissera-me que um dia agradeceria a ela por isso, duvidei, mas não quis lutar. Vi que era batalha perdida e enquanto eu retornava para casa lembrei-me que há muito não limpava o sótão e podia sentir, só de pensar, o gosto da poeira em minha boca, do frio e da escuridão daquele lugar. Olhei duas ou três vezes para aquela caixa e sorri com lágrimas: havia encontrado o teu lugar.
terça-feira, dezembro 29, 2009
Todo azul do mar;
E você me cantou todo azul do mar dizendo que era por causa da fitinha. Que a sua mãe gostava e que você, mesmo achando brega, gostava da poesia da música. Eu ri novamente. Porque você sabia que eu era bem boba com essas demonstrações de afeto e então corei. E nós nos fitamos por alguns instantes a mais. E o sol escondia-se atrás dos prédios anunciando que era hora de ir, mas você continuou ali. E eu sentia que as minhas emoções sempre mudavam quando te tinha por perto, mas não compreendia. E eu ficava me perguntando se a gente se amava, sem que os meus lábios se abrissem - apenas em pensamento. E você me lia claramente. E nossos olhos confusos e tímidos avistavam o nada, só o horizonte. E não precisamos dizer nada. E então eu lembrei que não houve um adeus, um até logo ou breve e que as despedidas nunca fizeram parte de nosso cotidiano. E a gente se pertencia e ponto final. Porque não tivemos um fim de fato.
E você me veio assim manso e sem pretensão alguma. Deitando-se em minhas pernas continuou ali por várias horas, até que a Lua estivesse no alto do céu. E eu te acariciava os cabelos negros como a asa de uma graúna e te cantava More than Words e a gente sempre se amava daquela maneira. Contida. Só com palavras, porque os gestos e toques já não nos satisfaziam mais. E naquela noite eu não te beijei e pela primeira vez vimos que era melhor assim. Porque não era necessário que nossos lábios se tocassem para que soubéssemos que éramos de fato um do outro.