Eu tive um sonho


Sempre achei que receberia um beijo de cinema – daqueles que faltam o ar aos telespectadores – mas você me beijou a testa. Eu me vi uma recém-nascida em seus braços. O cuidado que você me tinha era típico de um pai sem coordenação, de primeira viagem, que não compreendia o que estava acontecendo, mas ainda assim estava grato. Beijou-me a fronte com a doçura de um apaixonado. Abraçou-me com a força de uma criança que deseja manter um gato arredio entre os braços (mesmo sem precisar, pois jamais sairia dali). E me fez reconhecer os sentimentos que cultivava apenas dentro de peito. 

Havia muita luz, muitas pessoas e o ir e vir delas não me desconcentrava. Olhava o teus olhos de promessas muitas, sentia o teu respirar sôfrego, o coração descompassando com o meu, e imaginava que era apenas um sonho. Estar ali não era real apesar de tê-lo envolto a mim. Pensava, enquanto tentava "deslinhar" meus cabelos que estavam presos em seu colar, que a vida tinha se enrolado por algum tempo, que os passos haviam se desencontrado, mas que o próprio destino tratou de traçar uma nova rota, nos mandar por outra trilha para sermos novamente um do outro.

Sorria tímida enquanto olhava teu desespero ao me dizer:

– Acho que vou ter que cortar o teu cabelo.
– Acho que você tem que continuar me abraçando.

E nos abraçamos por longos minutos, enquanto ríamos como dois abobados. A risada sempre foi o combustível de nossas conversas e ali, em meio aquele grande nada, ela ecoava por todos os cantos. Eu vi respostas às perguntas que outrora estiveram tão obscuras em minha mente, eu compreendi que fora necessário nos perdermos para nos encontrarmos e descobri ali, em meio ao caos daquele encontro, que eu te amava em meu silêncio e que você me amou - e amava - em sua renúncia. 

– Uma ametista? 
Eu perguntei.
– 'Preciosa' igual a você.
Você sorriu.



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