quinta-feira, novembro 08, 2012

Dormência


“Eu sei que há algo sagrado e reservado
E recebido somente por mim.”
Semisonic.



Essa dormência aqui dentro é boa, moço. Porque ela está amarrada em uma vontade doce de abraçar o mundo, desde que tu vieste aqui pintar arco-íris em meu coração. Existe uma alegria cá dentro impossível de não sentir. Não há como evitar. Não há como não querer. Porque ela faz com que milhões de borboletas dancem em meu estômago ao som de bateria de escola de samba. Porque a boca seca toda vez que tu vens carinhosamente me contar do teu dia e em seguida ouve, pacientemente, o meu.

É coisa pouca, moço. É coisa pequena. Mas penso que a vida é construída dessas pequenas miudezas que ninguém comenta. Essas coisas “pequenas” que nenhum jornal tem vontade de noticiar. Como quando alguém ajuda um velhinho atravessar a rua, alguém estende a mão a um irmão de rua ou quando a lagarta no fim do seu ciclo de transformação sai do casulo e vira borboleta. Tudo isso é tão lindo e ninguém noticia, não é?  Só que eu vejo, moço. Eu sinto. De uma forma tão desesperada cada gotinha de amor espalhada por aí. Absorvo tudo.

Acho que ninguém vai entender, porque eu mesma não entendo, como tudo está tão agitado e quieto ao mesmo tempo dentro de mim. Como eu não consigo pensar em você com a constância que desejaria e ainda assim sei que tu estás cá dentro guardadinho. Como você não vem a minha mente enquanto deito a cabeça sobre o travesseiro para dormir e ainda assim sei estás alojando-se dentro de mim. E embora haja tanta confusão dentro de mim, eu vou caminhando devagarinho, apreciando cada gesto, porque eu sei que há algo sagrado e reservado, e recebido somente por mim.

quarta-feira, outubro 10, 2012

Seu gosto.



Eu lembro o seu gosto em minha boca, guri. Da mesma forma que me lembro daquele seu tênis horroroso e surrado vindo em minha direção enquanto eu estava sentada naquela quadra poliesportiva, dos seus olhos observando-me brincar com a fitinha comprada na última romaria e o embolo de sua voz ao tentar puxar conversa. Eu lembro. De você enlouquecido com a minha calça heavy metal e o meu cabelo Black Power. 

De como você me apoiou quando disse que não conseguia levantar, pois minhas pernas estavam dormentes devido ao tempo em que estive sentada no chão. Lembro da sua cara super interessada com todas as minhas falácias, com o teu olhar atento ao me ouvir dizer que eu era poetisa e a tua insistência para que eu declamasse algum poema. E você venceu. E lá estava eu recitando Soneto de Fidelidade, de Vinícius de Moraes, e você sorriu e beijou minha testa dizendo: “me deixa cuidar de você?” Deixei.

Lembro de você me acordar às 08h da manhã de um domingo para que eu pudesse assistir uma apresentação de fantoches, de você me estender às mãos enquanto caminhávamos em direção a praça, de você me apresentar uma constelação inteira em seus olhos e ver estrelas caindo em um piscar de cílios. Do beijo de fogos de artifícios que até então desconhecia. De dependurar a minha vida em teus longos braços enquanto sentados na calçada você tecia sonhos de pop star. De sonhar um futuro que há nós não pertencia e ainda assim saltar em direção ao abismo esperando que tu viesses atrás.

Eu lembro o seu gosto em minha boca. Às vezes em que eu desejei contar os meses contigo, que o calendário voltasse aos dias felizes e não marcasse jamais o final do mês. Que o mês de Setembro voltasse a ser bonito e não se tornasse para mim um Agosto como Caio escreveu. Que o teu corpo dançasse com o meu debaixo de um luar de Lua Cheia e esplendorosa, que ela iluminasse todos os meus poros e que trôpegos de amor nos déssemos a viver desmedidamente. Que o meu eu te amo fosse capaz de te convencer a ficar. Hoje eu lembro. Só lembro.

terça-feira, outubro 02, 2012

Do amor e suas bobagens.


Ouvi dizer que as praias de Moçambique são belíssimas. Ela suspira enquanto continua a frase: - você poderia escrever cartas e colocar em garrafas jogando-as no mar ou então pode fazer algo mais direcionado, enviar um cartão-postal para seus amigos, de modo que eles pensem: “cara, esse moleque é doido, vai ser comido por leões.” É. Todo mundo acha que o fato de você estar na África te coloca em uma Savana, assim como todos acreditam que morar em Brasília te faz vizinho do Presidente. E então eu tomei uma dose de vodca. E sorri. Não dava para dizer que não iria enviar cartão-postal a ninguém, eu não era dado a manifestações de afeto. Achava aquilo tudo muito falso e sentimentalóide.

– Sim. As praias de Moçambique são lindas. Por fim falei. E enquanto ela acendia mais um cigarro eu pensei: “cara, como é sexy o jeito que ela acende o cigarro.” Estávamos mais ou menos em paz até então. E eu previa que a conversa humorada duraria poucos minutos, tempestade a vista era o que denunciava a cor de seus olhos. Eu lembrava de Alceu Valença, de Zé Ramalho e recordava o movimento estudantil e como ela era bonita quando abraçava alguma causa. Que ela tomava café como alguém que estivera há 3 dias sem tomar água no deserto do Saara. Que por vezes suas unhas escorriam sangue enquanto conversava nervosamente com alguém. E que ela (...) poxa, ela tinha um olho verde e outro castanho.

– Veja se as conchas da África são bonitas e... – Eu não entendia sequer uma palavra. Ela tinha covinha apenas na bochecha esquerda e uma pinta acima dos lábios estilo Marylin Monroe. E meu coração estava batendo, como diz a música, zabumba bumba esquisito dentro do peito. E embora houvesse sinais para ficar. A cabeça, comandante geral, apressou-me os passos e sem dar tempo ao coração agir “desferiu-lhe” em sua testa um beijo de adeus. Afetuoso. Não o suficiente para lhe dizer que eu era seu.

domingo, setembro 30, 2012

Adeus você.

Por favor, não me olhe com essa cara. Eu te imploro. Me dói um bom bocado te ver com chuva nos olhos, garoto. E me retarda um pouco, vês? Me deixa ir o quanto antes... eu preciso terminar de recolher as minhas coisas, mas ver você tão miúdo desse jeito me corta o coração. Você realmente não se lembra de tudo que você me disse ontem? Pois é, eu ponderei e concordei com todas as linhas atropeladas que saíram da tua boca chorosa. Então eu decidi recolher todos os meus pedaços e recomeçar no meu mundinho, na minha zona de conforto. Eu ‘tô levando tudo de mim, que é pra não ter razões pra chorar. Vai passar, talvez. Por favor. Me deixa ir. Deixa eu passar por essa porta. Entendo a tua raiva, por favor. Não pensa que vou por não te amar, mas eu realmente preciso ir. Sair dessa vida de mendigar amores.

Eu também acho que não deveria acabar dessa forma, mas ouvi dizer – não me recordo onde -, que alguns amores são bonitos simplesmente pelo fato de terem que acabar. E sabe? Eu concordo com isso. Ninguém lembraria de Romeu e Julieta se eles tivesse ficado juntos e constituído uma família, Titanic não teria sido um sucesso de bilheteria se o Jack não tivesse morrido também. A despedida sempre é bonita, beibe. E muitas vezes é necessária. Estou levando minhas coisas, para que tu não te apegues a mim. Me deixa ir. Enquanto ainda há um pouco de dignidade nesse relacionamento, enquanto podemos olhar um para o outro e dizer que valeu a pena. Só me deixe ir.



Em parceria com a bonita, Mafê.

quarta-feira, setembro 26, 2012

A culpa é?

A Culpa, realmente, é das Estrelas. Terminei de ler o livro ontem para uma discussão literária que participo no face, e não muito diferente dos outros eu também chorei. Não porque o livro fosse realmente muito triste. Porque não é. Ou é? Mas eu vejo apenas a vida “poetizada” por assim dizer. Quantas pessoas apenas morrem e viram névoa em nossas mentes até, por fim, simplesmente dissipar. Eu tive experiências dolorosas ao perder algu
ém querido. E enquanto eu lia um capítulo eu lembrei de mim, deitada com o cabeça afundada no travesseiro para abafar o meu choro. Sim! Aquele choro que você quer gritar, ou melhor, que você grita junto. É, não chorei exatamente por causa do livro. Chorei porque me arrancaram assim, do nada, pessoas que eu amava muito. Se você nunca perdeu alguém querido não sabe o que é não poder mais abraçar, não poder contar uma novidade. E eu fi
co pensando como a nossa “existencialidade” é tão efêmera. Nossa vida é água colhida pelas mãos que escorre pelos dedos em instantes. Ninguém eterniza ninguém. Você pode dizer que a pessoa ficará viva em seu coração. Eu já disse isso. Confesso. E realmente não somos “deuses” para manter ninguém vivo em nós, é impossível. A pessoa morreu. Morreu. A gente não lembra, sério. A não ser que sintamos alguma fragrância, estejamos em algum lugar que era comum aos dois, mas fora isso não lembramos. A própria memória trata de imitar a vida e mata a pessoa em nós também. 


Sinceramente. Eu choro hoje. De dor.

quinta-feira, setembro 20, 2012

Paciência.



Eu estive tão desconexa ultimamente e, sem perceber, fui criando motivos para não ter atravessar aquela linha tênue que hoje nos separa, pois sabia que de alguma forma ela era necessária para manter equilibrado aquele edifício que juntos construimos. E por que eu me importava tanto com a manutenção disso? Se eu disser que não sei facilmente você lerá em meus lábios que eu estou mentindo. Eu sei o motivo. É que eu tenho medo de atravessar a ponte, medo de dar passos em direção a você e perceber que não há mais o que se viver. Porque, caramba, eu sinto que ainda preciso desse sentimento.

E então divagando, como sempre, eu reajo a minha imagem refletida espelho que insiste em me interrogar: "o que você ama nessa história, moça?" Só que diferente da pergunta acima eu não tenho resposta. Porque eu simplesmente não sei o que dizer. Eu poderia dizer que sinto saudade do teu sorriso largo, poderia dizer que sinto saudades do seu sarcasmo ou até mesmo de apenas te ver passar por aí bem bonito como tu sempre fazes, mas eu embora eu busque argumentos para pedir que você permaneça de alguma forma aqui dentro, acredito, que não tenho paciência para lhe falar.

Paciência. Isso me falta tanto, sabe? Desde que você começou a ser ausente, quando resolveu ir à padaria comprar cigarro e me abandonar. Daí então é que as coisas ficaram mais claras, entenda que você não pode simplesmente entrar e sair da vida das pessoas como bem entende, como se as pessoas não tivessem sentimentos ou seus corações fossem uma loja de conveniência de beira de estrada. Entenda, é necessário partir de vez em quando, mas pessoas normais apesar de odiarem despedidas costumam por gratidão dizer adeus. Algumas mais cômicas no estilo Exterminador do Futuro, "Hasta la Vista, Baby." Mas você não. E eu sinceramente pergunto, por quê?

Talvez eu não saiba nunca. Porque, sinceramente, os meus pés permanecerão imóveis aqui. Não é que você não mereça esforço, ao contrário, é apenas uma forma de preservar aqui dentro a pessoa bonita que você é. É a única forma de manter viva em meu coração toda a tua docilidade. E talvez a melhor maneira de guardar em mim o teu sorriso, a tua voz, as lembranças mais suaves de um passado feliz, porque embora você tenha mudado em minhas recordações continuará sendo mesmo.