Ela não vem com manual de instrução, mas você vai perceber – aos poucos – que ela tem um modo peculiar de observar a vida. O Sol dela vive brigando com a sua Lua: ela é de Áries. O coração da moça vive sempre na corda bamba, sempre em seu limiar, lutando bravamente para se manter calma e serena. Ela é de Áries e você sabe, nós sabemos, todos sabem, o quanto é perigoso – em determinados momentos – estar ao lado dela. Ela carrega dentro de si um vulcão prestes a entrar em erupção, mas a Lua dela é responsável por adormecer e, até mesmo, apagar esse fogo que há em seu interior.

Ela traz no peito toda a doçura de morangos campestres – aqueles vermelhos que se dissolvem na boca – e todo o fel que as bocas inteiras, desde a criação do mundo, já experimentaram. Ela não se entende. Quem a entende? Ela ri de piadas bobas com a mesma intensidade que chora por causa de comerciais de margarina. Ela sente muito, com muita força, com muito pesar, com muita violência. E quando vê que não é correspondida da mesma forma se apavora, a Lua dela a maltrata, derruba-a na lona arrancando o pouco da dignidade que lhe restara.

A Lua dela é em câncer. E a gente percebe que não poderia ser outra, tendo em vista que ela é relicário de amor. Seus carinhos transbordam. Jorram feito água depositada sem zelo dentro de uma jarra. Ela ama, ama muito, ama com força. E não há quem diga que o seu Sol tenha gosto de sangue, que ama incitar a guerra, que provoca rebeliões, que incendeia aldeias inteiras, porque ele se faz tímido diante da beleza, da “reluzência” e de todo o encanto que o luar provoca sobre as pessoas.

O abraço dela é perigoso e quem esteve em seus braços sabe. Ele é casa arejada, com janelas abertas, convidando a luz do sol a entrar pelas frestas e é um vespeiro – outras vezes – em que se recomenda, no mínimo, 10 km de distância. A moça é uma incógnita, é tesouro que se esconde nas profundezas do mar. E seu coração, ah! Seu coração é o único mapa capaz de desvendar os mistérios que ela traz em sua alma. Dizem, reza a lenda, que quem conseguir ler, traduzir os caminhos, e conseguir se equilibrar entre sua doçura e acidez será um bandeirante a desbravar os céus e mares que há em seu interior. Ela é para piratas e forasteiros. Ela é.

Fotografia: Théo Gosselin.