Não tenha medo de amar.



Enfurecida, era assim que eu estava, depois de tentar permanecer passiva. A raiva finalmente tomava conta. Ver o John tentando me acalmar, vê-lo com tanta paciência era o ápice da minha indignação.

- Até quando você vai decidir nossas vidas sozinho? Não, nós não vamos suportar a distância. E não, não vou mudar com você. Você sabe que não vamos conseguir!

Estava tão exaltada, acho que foi a primeira vez que me senti assim. Não queria perder o que tínhamos, ele era o meu suporte, minha bússola. Não ter abraço forte do John era não me ter. A vida já tinha me dado tantas surras, por isso acabei me tornando uma pessoa egoísta, caprichosa e que muitas vezes foge do que provoca alguma emoção. Mas ele era minha maior contradição. Estava totalmente apaixonada, sem razão e egoísta por não aceitar ser deixada como um móvel velho. Eu sei que ele precisava do emprego, era uma grande chance na sua vida, mas isso significava a derrota da nossa continuação.

- Nós vamos dar um jeito, sempre foi assim. É um tempo. Te levo comigo ou volto. Sempre vou voltar para você. Nós estamos ligados, lembra?

Então pegou minha mão, fez carinho, encaixou sua outra mão no meu maxilar. Meu coração acelerado, tentei morder a boca para evitar o choro. Meus olhos brilhavam como se tivessem mil estrelas cadentes. Era a minha queda. O meu desejo era me embrulhar no seu peito. Ele é tão grande, eu tão frágil. Meu orgulho tomou as rédeas.

- Vou embora. Não quero ficar aqui, não é uma boa hora.

Enquanto disse isso procurei olhar para qualquer lugar, não queria encarar e perder a coragem. Apertei as chaves, tomei distância dele e foi como cortar um laço. Estava abrindo a porta quando seu corpo me apertou. Quase esmaguei a textura da roupa dele. Me pegou no colo, pegou minhas pernas. Me achei segura na firmeza dele e da parede. Nos beijamos. Nos beijamos com desespero, uma intensidade inesgotável. Era assim, tínhamos o agora, amanhã algo já estava tentando nos separar. Mas nossa conexão era tão forte.

Nossa saliva se misturava, molhado, suave, quase até perder a respiração. Navegava com meus dedos na sua nuca, pescoço, peito. Nossas línguas já eram náufragos felizes que dançavam. Estávamos controlados pelo descontrole. Perdíamos a direção juntos. Na escada, na mesa da cozinha, na sacada, no chão, na cama. Cada átomo do meu corpo implorava para ser dele, cada partícula. Estava tão apaixonada. E era assim. Nos tomávamos um só. 

Deitada embaixo do John, nos olhávamos, sentia seu beijo na minha testa, seu carinho. Tirávamos a roupa, enquanto a luz laranja da luminária cobria e devorava tudo aquilo que tocava. A pele que rodeava, colonizava, aquecia. Uma alma fazendo morada na outra. Como o mar que se envolve até ser uma coisa só. Até não saber mais quem é de quem. Até aquietar os pensamentos e esquecer o tanto que machucava imaginar nossa separação.

Existem coisas que estão fadadas ao fim, e você sabe, então tenta adiar. Quase suplicando mais um instante. Uma aposta, jogo de azar. Como poderia dar certo se é amor e vivemos nesse mundo caótico? Mas eu amo, não posso fazer mais nada a respeito, me joguei conhecendo as consequências. E aceito. E não me arrependo. Nem por um segundo, nem por descuido. Sei que si existisse a possibilidade viveria uma e outra vez. Assim. Ligados. Como dois corpos completamente entregues, que logo serão velhos, um dia só o pó. Então me diga, qual o sentido disso tudo senão sentir? Qual a graça em não ser feliz por medo de sofrer?


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3 comentários

  1. Parabéns pelo texto, Nina! Escrevendo lindamente como de costume.

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  2. Muito lindo, meu girassol. Você ainda vai voar muito. ��

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