O tempo frio me faz ficar mais reflexiva e, por mais que eu tente lutar contra meus pensamentos, esses dias ando pensando demais na nossa (ex) relação. Quando nós estamos dentro da vida do outro, quando nós estamos imersos nos sentimentos que nos une, não conseguimos enxergar a dimensão de nossa dependência e o quanto isso – esse amor desmedido – pode ser prejudicial. Há ditados e ditados que sempre nos aconselham, nos advertem, que o excesso é responsável pela falta de equilíbrio das coisas. Não me atenho a correlacionar apenas ao nosso relacionamento, mas também a tudo que fica em nós após a partida do outro: aquela falsa felicidade que me vem ao coração todas as vezes que eu me lembro da tua voz, minha compreensão quase inocente dos seus porquês – leia-se mentiras –, e a minha falta de piedade por mim mesma.

Tenho pensado bastante – não por ainda te amar – mas somente por não compreender o motivo de tê-lo amado. Tenho buscado, ainda, entre as minhas recordações, dias felizes ao seu lado e só me deparo com situações, com os meus pensamentos a respeito de ti à época, a idealização que desenhei sobre você em minha mente.
A verdade é que eu amei uma projeção, amei aquilo que os meus pensamentos fantasiavam. Na realidade eu amava, afinal de contas, a mim mesma em você. E não propriamente você. Compreende?

Hoje, diante de todas as conversas que tive comigo mesma, após analisar a passagem da sua vida pela minha como tudo, eu percebo que sou bem sortuda por ela ter sido passageira, por não ter causado danos maiores, por ter sido apenas uma breve estadia. A gente não entende as perdas no momento que passamos por elas e a nossa primeira reação é tentar consertar o que está quebrado, segurar com as mãos aquilo que pode vir a se perder, tentar convencer ao outro que éramos para ser. E, sabe, querido ex, fico feliz por não tê-lo convencido a ficar, a permanecer ao meu lado. Porque amor não se pede, não implora em circunstância alguma, não se suplica. Amor não é esmola.

Fico feliz, mais ainda, por ter compreendido que a culpa nem de longe foi minha, que a principal razão foi a incapacidade que você tem de realmente amar alguém, a sua inaptidão em ser fiel aos sentimentos dos outros, a sua falta de empatia para com os outros e dentre outras razões que não valem a pena se enumerar. E hoje parei em frente a uma recordação palpável sua, um presente que recebi seu, e me permiti deixá-lo de lado. Não mais usá-lo em nenhuma situação. Não preciso de mais nada que me lembre de ti, a bagagem de lembranças já me pesam o suficiente, me maltratam o bastante. E machucam não porque te amo, mas sim porque eu te amei.

Crédito da imagem: Theó Gosselin.