Traduzo a saudade em forma de imagem e eis que me surge você. E, de repente, me vejo dentro dos seus olhos, embriagada com o teu gosto, abarcada em tuas mãos e pernas. A saudade tem um sorriso sapeca, daquelas crianças levadas que quebram o vaso de flores da mãe e esconde os cacos debaixo da cama, tem os lábios que se tornam porto - aqueles que os navios ancoram após dias de viagem - ao receber os meus cansados.

A saudade tem endereço fixo, mas não me refiro a casa de alvenaria, com telhado e diversos cômodos. Seu domicílio é feito de gozo, de pulsação, de sangue e algumas teias. É feita de nó que me amarra e que me faz uma refém declarada (sem precisar carregar ou trancar a cela com chaves e ferrolhos).

A minha saudade tem o coração sofrido pelas decepções da vida, mas tem o sorriso mais largo que muita gente eufórica. Ela tem a barba espessa que me faz cócegas quando insisto em me desenhar nervosa, enquanto meus lábios se afinam em um traço de aborrecimento. Tem o olhar cálido ao pousar seus olhos sobre o meu rosto que envergonhado desvia.

Ela tem a compaixão de alguém que ajuda um refugiado de uma guerra, tem a calma de uma mãe que ensina seu filho andar de bicicleta, tem a paciência que muitos invejariam - talvez até Jó - ao abraçar as minhas dificuldades, dúvidas e traumas, tem a paixão que somente um atleta teria ao mover céus e terras em busca de seu troféu, tem as marcas da vida tatuada em braile sobre a pele.

Essa saudade tem endereço fixo - eu repito - e ela sabe bem onde é.


Segundo post do grupo Escritores na Era do Compartilhamento. Leia também: Tati ArgentaLeca LichacovskiSâmela FariaJô LimaJoany TalonNathalia Moraes;  Ju Rodrigues TamyheTaciana Gaideski; Fernanda Probst; Cristina SouzaValter JuniorTayane S.; Layna Dias