Três de Janeiro de Dois Mil e Onze. Sentou-se na cadeira habitual e folheava seu livro. Nada incomum. Tudo aquilo que ela sempre faz todos os dias. Deslizava os olhos sobre as desventuras da menina que insista em alimentar-se de palavras furtadas. Havia uma angústia a cada palavra lida, esperava-se o pior para aquela menina ossuda. Não dá para se esperar algo melhor para alguém que vivia na Alemanha nazista. Entre suspiros e lágrimas que aos poucos formavam-se nos cantos de seus olhos ele aparecera.

Ele. Uns 7 anos mais velho. O tempo exato de sua última aparição. Não havia mudado quase nada. A não ser o rosto com linhas de expressão mais fortes. Ele esboçou um sorriso nos lábios e sentou-se ao seu lado: "Bom dia, moça. Que milagre é esse!" - Disse-lhe com um sorriso estonteante. Devolveu-lhe um sorriso amarelo, mais pela timidez do que qualquer outra coisa. Ele tinha o dom de desconcertá-la desde sempre. Ela, porém, limitou-se a assentir com a cabeça. Fechou o livro em seguida e fitou-lhe os olhos. Mergulhou por um instante.

- Pego carona com meus pais até aqui. Há alguns meses. - Por algum motivo ela sentiu-se envergonhada após dizer isso. E o silêncio reinou entre os dois naquele momento, ela pensou em pegar o livro novamente e folheá-lo, mas desistiu quando ele lhe perguntara:
- Posso ligar pra você essa noite? - Com um sorriso largo ele lhe perguntou.
E ela apenas assentiu e lhe passou o seu novo número. A parada seguinte era do moço de olhos verdes e cabelo militar. Cinco minutos após sua descida ela recebera um torpedo.
- Não é por acaso que nos encontramos. Até à noite. Marcos.
Ela sorriu e pensou: "Que 2011 seja diferente!".
O cobrador vendo seu sorriso disse: "Parece que alguém usou rosa na passagem do ano."
Ela apenas sorriu. Era hora de descer.

Feliz DoisMileOnze!