Eu não quero - e nunca fiz, disso aqui um diário. Mas, sabe aquela vontade de parar e escrever o que sente às claras? Então. É tristeza. Puro descontentamento e uma vontade imensa de terminar, de dormir apenas. Eu não compreendo como cheguei assim ao fundo do poço, mas eu estou acostumada já. É como Caio F. diz: Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.
Escrever me preenche de uma maneira que eu não compreendo. Contudo, as palavras me fogem. E não há alegria, não há amor para ser escrito, não existe nada na verdade. E me dói. Eu estou tão perdida. Com uma vontade imensa de me isolar do mundo. De ficar sozinha, somente eu e minhas aflições. E as pessoas que mais se importam comigo eu afastei, deixei de lado. Porque eu não consigo dar aquilo que elas querem, atenção, carinho, amor e eu também não quero. O pior de tudo isso que está acontecendo comigo é que eu não quero mudar. Entende? Estou gostando da água do poço, acostumei com o lodo e com os meus dedos que já estão enrugando. Eu nem sou tão boa com as pessoas imaginam e dizem. Por que as pessoas me amam se eu nem mereço?
Eu tenho consciência que estou afastando propositalmente todos os meus amigos, mas eu acho que é melhor assim. É, porque está ao meu lado ia ser um fardo. Na verdade eu sempre achei que eu nunca gostei foi de mim. E não deles.