terça-feira, junho 02, 2026

Foi então que vi você.


Ontem ouvi alguém dizer que atraímos aquilo em que pensamos. Que os pensamentos têm força, que a mente chama para perto aquilo que insiste em habitar o coração. Talvez por isso eu tenha passado boa parte do dia mergulhada em perguntas sem resposta, revivendo silêncios, repassando lembranças e tentando compreender os porquês que ainda permanecem suspensos no tempo.

Foi então que vi você.

Não por muito tempo. Apenas o suficiente para que algo dentro de mim se movesse. E, de repente, senti uma tristeza serena, dessas que não chegam fazendo alarde, mas se acomodam devagar no peito. Tentei desviar o olhar. Tentei convencer a mim mesma de que já havia virado a página. Afinal, é isso que fazemos quando a vida segue, não é? Viramos páginas, fechamos capítulos, guardamos histórias em alguma gaveta da memória.

Mas como se esquece alguém que admiramos profundamente? Como se abandona o carinho construído em tantos momentos, em tantas conversas, em tantos sonhos compartilhados, mesmo que apenas em pensamento?

Você parece distante agora. Como uma cena antiga vista através de uma película cinematográfica embaçada, com cores desbotadas pelo tempo. Ainda assim, existe algo que permanece. Um afeto silencioso. Uma chama pequena e discreta que insiste em arder, não com a intensidade de antes, mas com a teimosia das coisas que foram verdadeiras.

Quando te vi, por um instante, quis acenar. Quis sorrir. Quis agir como quem reencontra alguém querido depois de uma longa ausência. Mas me contive. Entre o desejo e o gesto existe um espaço onde moram as dúvidas, e eu permaneci ali.

Às vezes me pergunto do que exatamente sinto falta. Talvez seja do amigo que perdi pelo caminho. Talvez das conversas que não tivemos. Talvez da presença que costumava ser tão natural. Ou talvez eu sinta falta daquilo que imaginei que poderíamos ter sido. Da história que nunca chegou a existir por completo. Do amor que eu acreditava ver crescer, ainda que lentamente, ainda que sem garantias.

E essa talvez seja a parte mais difícil: não sofrer pelo que acabou, mas pelo que nunca chegou a acontecer. Pela possibilidade interrompida. Pela promessa silenciosa que existia apenas no território das esperanças.

Não há como saber o que sentirei no próximo encontro. Não há como prever se a dor será menor, se o tempo terá cumprido seu papel ou se o coração ainda encontrará maneiras de se surpreender. Algumas ausências não desaparecem; apenas aprendem a ocupar menos espaço.

Mas a idealização do quase... essa tem um jeito peculiar de permanecer. Porque o quase não tem fim definido. Não conhece despedidas claras. O quase continua vivendo na imaginação, inventando futuros que nunca chegaram, criando diálogos que nunca aconteceram, alimentando perguntas que talvez jamais tenham resposta.

E talvez seja justamente por isso que ele dói tanto.

Porque às vezes é mais fácil aceitar o fim de uma história do que conviver com a saudade daquela que nunca teve a chance de começar.

sexta-feira, maio 29, 2026

Lembrei de como amar você era fácil.


Essa semana apareceram nas lembranças fotos da nossa viagem. Eu estava com meu celular antigo e parei para olhar nossas fotos. Não consigo deletar fotos antigas, principalmente aquelas que exalam felicidade. Sei colocar cada história em seu devido lugar, assim como sei dar importância a cada fase da vida.

Olhei aquelas fotos sem o saudosismo de antigamente. Vi duas pessoas felizes. Vi suas linhas de expressão tão bonitas, linhas de quem ri com gosto, de quem era feliz e merecia ser. Já faz dois anos daquelas fotos… como o tempo passou rápido. E, ainda assim, consigo sentir o que existia ali: o riso genuíno por bobagens, as conversas sobre amenidades, as fofoquinhas institucionais. Tudo parece distante e, ao mesmo tempo, incrivelmente vívido.

Lembrei de como amar você era fácil. Você era feliz. Ouvir sua voz pausada me fazia bem. Era bom escutar curiosidades sobre coisas que eu jamais procuraria saber sozinha: você sendo professor, falando com entusiasmo, e eu te olhando atentamente, ouvindo e admirando sua inteligência. Uma vez você disse que eu realmente te ouvia… mas como não ouvir alguém tão vivo, inquieto e de olhos tão curiosos?

Vi aquela cachoeira gelada, a parte funda, e lembrei de mim dizendo: “se você se afogar, não vou te salvar, porque não sei nadar” kkkkkk. E você ria enquanto flutuava de costas naquela água gélida, ouvindo os passarinhos cantarem. Tanta coisa era bonita ali. Seus olhos molhados, nossos cabelos pingando, o abraço tentando aquecer nossos corpos enquanto maio já trazia o frio de junho e julho.

Naquelas fotos, vi duas pessoas felizes, contentes com a vida, despreocupadas. Vi você me abraçando, beijando o topo da minha cabeça, com um semblante tão leve, tão contente.

As lembranças vieram sem que eu procurasse. Foi o destino quem trouxe dessa vez. E, curiosamente, não doeu. Fiquei feliz em rever o seu sorriso e em saber que, em algum momento da vida, nós fomos verdadeiramente felizes.

quarta-feira, março 25, 2026

Deve ter sido amor.


Eu ainda lembro do silêncio depois que você foi embora. Não era um silêncio vazio, era cheio de tudo que a gente não disse. Como se as palavras ainda estivessem no ar, procurando onde pousar, sem encontrar.

Ficaram os detalhes. A luz entrando pela janela do jeito que você gostava, o lado da cama que demorou a esfriar, a sensação estranha de que, por um tempo, tudo fez sentido. E fez mesmo. Eu não posso fingir que não fez.

Eu achei que era pra sempre. Naquele momento, eu tinha certeza. Era confortável, era certo, era tão fácil acreditar que a gente tinha encontrado exatamente o que todo mundo passa a vida procurando. E talvez a gente tenha encontrado. Só não soube o que fazer com isso depois.

Agora eu fico aqui, revisitando pedaços. Não pra tentar voltar, mas porque eles ainda vivem em mim de algum jeito. Como uma música que toca baixo na memória, insistindo em lembrar que foi real. Que existiu.

Eu sei que acabou. Eu sei que não cabe mais. Mas tem dias em que eu quase consigo tocar aquilo que a gente foi. E dói perceber que não está mais aqui.

E mesmo assim, eu não consigo chamar de engano.

Deve ter sido amor.

Só já não é mais.

segunda-feira, março 02, 2026

Debaixo da mesa.


Quantos sinais ainda serão necessários para você entender que essa pessoa não é pra você?

Porque a verdade, aquela que dói admitir, é que ninguém muda só porque você ama muito. Ninguém se transforma porque você decidiu ter paciência infinita, porque fez promessa, novena, oração ou pediu que alguém intercedesse, explicasse, traduzisse aquilo que você sente. Amor não é um idioma difícil. Quem quer entender, entende. Quem se importa, percebe.

Você tenta justificar. Tenta acreditar que falta apenas mais uma conversa, mais um gesto, mais um esforço seu. Como se existisse uma combinação perfeita de palavras capazes de abrir os olhos de alguém que escolhe não ver. Mas se ele não consegue enxergar a sua dor quando ela aparece no seu silêncio, no seu cansaço, no jeito que você já não ri como antes, não será pela boca de terceiros que ele compreenderá. Não será pelo conselho de amigos, pela intervenção de familiares ou pelos apontamentos de quem está de fora.

Porque o problema nunca foi falta de explicação. Foi falta de disposição para olhar.

E enquanto você insiste, começa a acreditar que o mundo está contra você. Que as pessoas que alertam são pessimistas, frustradas ou incapazes de entender o tamanho do que você sente. Mas, às vezes, quem está fora consegue ver com mais clareza justamente porque não está emocionalmente envolvido. Quem olha de longe percebe aquilo que você já normalizou.

Se você conseguisse sair, nem que fosse por um instante, do lugar onde está emocionalmente sentada, veria a cena inteira.

Veria que não está em uma mesa compartilhando um banquete de amor. Está embaixo dela, tentando se alimentar das migalhas que caem. Agradecendo por restos. Celebrando pequenas gentilezas como se fossem provas gigantes de afeto. Diminuindo suas necessidades para caber no pouco que é oferecido.

E o mais doloroso não é a escassez do outro. É o quanto você foi se convencendo de que aquilo bastava.

Você, que sempre soube amar com inteireza, começou a negociar o mínimo. Passou a chamar ausência de fase difícil, frieza de jeito dele, descaso de momento complicado. Foi se adaptando, se moldando, se silenciando, tudo para não perder alguém que nunca fez o mesmo esforço para não perder você.

Existe um ponto em que insistir deixa de ser amor e passa a ser abandono de si mesma.

Porque esperar que alguém mude para finalmente te amar do jeito que você merece é viver em suspensão. É adiar a própria felicidade apostando em uma versão futura que talvez nunca exista. É permanecer presa à esperança enquanto a realidade, todos os dias, mostra exatamente quem aquela pessoa é.

Os sinais não faltaram. Eles vieram em promessas não cumpridas, em conversas que não levaram a lugar nenhum, em lágrimas que você enxugou sozinha, em noites tentando entender o que mais poderia fazer para ser vista, escolhida, priorizada.

Mas amor não deveria ser um esforço solitário.

E talvez o maior sinal não esteja nele, esteja no cansaço que você sente. Na paz que nunca chega. Na sensação constante de estar pedindo demais quando, no fundo, você só queria o básico: cuidado, presença, reciprocidade.

Algumas pessoas não entram na nossa vida para ficar. Entram para ensinar o limite entre amar o outro e se perder de si.

E chega uma hora em que a pergunta deixa de ser “quando ele vai mudar?” e passa a ser “até quando eu vou aceitar viver assim?”.

Porque você não nasceu para disputar atenção, implorar compreensão ou sobreviver de migalhas emocionais. Você nasceu para sentar à mesa, inteira, respeitada, amada, ao lado de alguém que nunca precise ser convencido do seu valor.

sexta-feira, setembro 26, 2025

O tempo que cura.


Quando estamos imersos em uma situação, não conseguimos enxergar nada além dela, daquela dor quase lancinante que nos corta por inteiro, daquela vontade de abraçar o outro e não deixá-lo partir, de ter um truque na manga que reverta tudo. Mas, quando alguém quer ir embora, não há nada que possamos fazer. O que nos resta é aceitar, mesmo com o coração triste, e seguir em frente, catando os caquinhos que sobraram dentro de nós.

Meses atrás, ouvi tanto que um dia ia parar de doer. E toda vez que alguém dizia isso, eu sentia náusea. A ansiedade gritava dentro de mim. Eu não queria esquecer nem que passasse; eu só queria de volta aquilo que julgava ser meu, aquilo que me fazia feliz. A gente não consegue raciocinar direito quando está sofrendo. Eu não conseguia. Eu só queria de volta. Não queria que passasse, não queria um novo alguém, queria apenas ele.

E por um bom tempo vivi nessa ânsia, esperando uma mensagem, um sinal de fumaça… e nada. Nada. Nada. Os dias foram passando, as dores diminuindo, e a vida voltando ao eixo. Ainda doía demais pensar no que poderíamos ter sido, mas doía mais ainda lembrar do que éramos: dos dias felizes, das partilhas, dos sorrisos, dos jantares à mesa, de tantos momentos que enchiam meu coração e me diziam que eu poderia ser amada e que eu merecia.

Lembro de dizer às minhas amigas que me sentia como Bella Swan em Lua Nova, rasgando os calendários e sofrendo pela partida de Edward. Aquela cena, a dor era quase palpável. Só quem é millennial e viveu essa época sabe do que estou falando. E os dias correram. Mas, diferente de Edward, ele não voltou. E, ainda assim, os dias passaram a ser menos dolorosos. Aos poucos, passei a acordar sem tê-lo como primeiro pensamento. Os fins de semana voltaram a ter vida, e sentar à mesa já não me doía mais.

O tempo tem esse poder de ser remédio: cuidar de nós e reconstruir aquilo que foi demolido dentro de nós. Doeu muito, mais do que eu esperava e mais do que eu merecia. E aos poucos consegui enxergá-lo como ele realmente foi. Doeu tanto, sabe? E não, eu não merecia um desfecho tão ruim, um tratamento tão descartável. Mas, distante de todo o sentimento, consegui vê-lo de verdade. Não consigo mais procurar desculpas para humanizá-lo em cima da minha dor e, aliás, nem preciso.

Aos poucos, ele foi se tornando menos frequente nas minhas conversas. Como foi bom ter amigas que me deixaram esvaziar essa dor, que me ouviram e me abraçaram. Tantas vezes, aos prantos, eu dizia: “Amiga, obrigada por me ouvir. Isso dói tanto, tanto, que parece que meu coração está partindo ao meio”. E elas me ouviam. E me abraçavam. E enxugavam minhas lágrimas, uma, duas, três mil vezes. Ter esse apoio foi tão importante e necessário para que eu pudesse me curar. Aqui, eu afirmo: mulheres curam mulheres.

Esses dias, tive a certeza disso quando me deparei com ele no trânsito. Olhei e não senti. Não quis. Não amei. Era tudo o que eu precisava para entender que as cicatrizes, por mais profundas que sejam, um dia se fecham e deixam de doer.

A gente sempre acha que não vai aguentar, né? Até que a vida nos mostra, mesmo que leve um tempo, um ano, dois anos, que tudo passa. Até aquilo que achávamos que jamais passaria.

quarta-feira, abril 02, 2025

As estações que ficaram


Olhou pela janela e o vento frio atravessou a fresta da cortina, tocando sua pele como um aviso. Era abril, mas dentro dele ainda era agosto – aquele agosto pesado, meio úmido, que insiste em não passar. Tentou acender um cigarro, mas a chama do isqueiro falhou três vezes antes de pegar. Pensou que talvez fosse um sinal, desses que o universo manda quando a gente não quer escutar. Acendeu mesmo assim.

Lá fora, a cidade seguia seu fluxo indiferente. Carros apressados, gente distraída, buzinas cortando o silêncio da noite. Tanta pressa pra chegar onde? Ele não sabia mais se queria chegar a algum lugar. Ultimamente, tudo parecia um grande intervalo entre o que foi e o que nunca chegou a ser. A xícara de café esquecida na mesa, o livro aberto na mesma página há dias. Pequenos descuidos que denunciavam o caos interno.

Lembrou-se dela – sempre ela. Do jeito que ria jogando a cabeça para trás, das palavras cortantes ditas entre tragos e goles de vinho barato. Do silêncio que veio depois, pesado como pedra no bolso. Sentiu um gosto amargo na boca, não soube dizer se era da lembrança ou do cigarro. A verdade é que algumas pessoas se tornam uma estação inteira dentro da gente. E, quando vão embora, levam junto o verão, o outono, tudo.

Deu uma última tragada e apagou o cigarro na beirada do cinzeiro já cheio. Precisava dormir, mas sabia que o sono não viria. Não nessa noite. Olhou para o teto e sentiu um cansaço profundo – desses que não é físico, mas que pesa nos ombros como se fosse. Amanhã, talvez, o vento soprasse diferente. Talvez abril chegasse de verdade. Talvez ele, enfim, conseguisse seguir.