terça-feira, maio 30, 2017

Ideia.


Fiquei apenas pensando que seu rosto
parece com as minhas ideias.



[Corpo de lama - Chico Science]

Eu quero me aninhar no teu peito, baby. Quero que você me conte bobagenzinhas enquanto escuto tua respiração. Quero sentir teu coração bater, ouvir tua risada, segurar tua mão por mais tempo, te entregar mais que dois sorrisos. Mais que um ruído. Eu quero espalhar beijinhos no teu rosto e passear, confusa, em você.

Quero te ligar no meio da noite e ficar em silêncio até conseguir dormir outra vez. Quero que você me abrace. Que você sempre me abrace. Que caminhe ao meu lado segurando no bolso de trás das minhas calças. Quero saber a frequência com que pisca os olhos e decorar o que te faz franzir o nariz.

Quero papos desconexos, propostas decentes e outras tantas avessas. Quero entrar no primeiro ônibus disponível e passar um dia inteiro num lugar onde sejamos estranhos. Quero te puxar pelos braços e que você recue para me pirraçar enquanto vai pintando poesia nos dentes. Quero que teu cruzar de pernas me inspire um texto e que você faça um carinho bom em minha nuca, me abraçando por trás enquanto me observa sentada ao computador.

Quero que você me veja chorando ao cortar cebolas e sempre cante a música de Caetano, só para me ouvir te chamar de previsível e debocharmos juntos das mesmices que são só nossas. Quero que não me diga que sou ciumenta e não se importe com minhas melancolias mensais.

Quero que a vodka tempere nossas brigas bobas, e que deitemos exaustos no colchão ali, no chão da sala, enquanto a vida corre do lado de fora da casa. Quero ver você dar risada da minha cara ao desistir de calcular o troco e que não se importe em ir ao cinema nos horários mais improváveis.

Quero que você se arrisque na cozinha só para me ouvir reclamar depois. Quero nossos beijos cítricos e tua língua tingida com o vermelho do que vai sempre arder em nós. Quero aquelas noites com a luz fraca, tua arte exata e minha busca imperfeita.

Quero que você aumente o som quando começar a tocar uma música que eu goste. Quero te telefonar ao me deparar com algo que se pareça contigo. Quero te ver fechar o jeans, te puxar de volta para a cama, te fazer vacilar, burlar resistências.

Quero pizza gelada enquanto te mostro meus filmes preferidos. Quero te fotografar até você arrancar a câmera das minhas mãos e fazer o mesmo comigo. Quero me rasgar aos pouquinhos para você, só para você. Quero que folheie um caderno meu e reclame porque não escrevo na linha. Porque não escrevo.

Quero entender quando dói e fazer parar de doer. Quero te adivinhar com meus lábios. Quero te projetar: você-filme. Quero espernear. Quero que você bagunce o quarto e te olharolharolhar com minhas pálpebras egoístas que te guardam só para mim. Quero todo esse medo de abri-las para não te deixar escapulir. Quero te achar ridículo enquanto escuto você cantar ao chuveiro. Quero colo.

Quero que você entenda minha euforia após o teatro. Que não se espante com minha sensibilidade. Que não sofra com minha insensibilidade. Que não soframos tanto, apesar das crises, raivinhas, impaciência e muita falta de sentido.

Quero você na minha parede verde. Quero pintar nossa parede. Te borrar a roupa. Tomar banho na chuva, rolar na areia da praia. Quero decifrar tua chegada pela maneira como toca o interfone. Te cantar músicas bregas, caminhar pela praça.

Não quero nada. Só preciso inventar uma palavra. Algo que te explique. E olhar para você mais um pouco, assim, sem querer.

É uma ideia.

Fotografia: Maud Chalard.


quarta-feira, maio 24, 2017

Já podemos ir.



— Já podemos ir.

Disse por um instante. Mas o teu beijo me roubou os sentidos e me fez demorar um pouco mais. A vida parecia não existir lá fora. O que me importava era o seu olhar sobre o meu e a forma como me sentia tua na sua íris. Nada de mim era meu. Nem minha pernas. Nem meus seios. Nem meus meios. Tudo era teu. Do início ao fim. Me perdi em seus olhos para me encontrar em teus braços. Me perdi em teus lábios para me encontrar no céu. O relógio havia parado. Não havia vida além de nós. Não havia nada a se preocupar. Não havia o mundo a nos esperar.

Entre erros e acertos. Entre risos e olhares. Eu fui tua até onde a minha capacidade permitia. Da inocência à malícia. No vai e vem de tuas pernas eu me descobri dona de mim mesma. Compreendi que meu coração sabia ancorar no porto certo. Você me era porto seguro. Eu te era um navio desconhecido que piratas cruzam os mares atrás de encontrar. Tesouro seu são meus olhos. Riqueza minha teus lábios. Lábios que me leem com voracidade e percorrem meus caminhos com sede.

Tua água fui.

Pouco a pouco saciei tua sede de mim. Entre sussurros e gemidos abandonei um pouco da minha inocência. Inocência essa que trouxe gargalhada aos teus lábios. Tão boba, menina. Tão linda ao mesmo tempo. Ser teu pão, tua comida, nem parecia tão Cazuza. Parecia canção feita em nossa pele. Som que surgiu de nosso gozo. Melodia que cresceu de nós. Da canção aos urros. Da excitação ao prazer pleno. Fomos.

— Já podemos ir.

Disse por um instante. Não antes de olhar o meu reflexo em teus olhos e me ver inteira ali.



terça-feira, maio 23, 2017

Obrigada por me magoar, rapaz!



É sério. Obrigada por me magoar mesmo. Fiz de você um príncipe encantado que você nunca foi. Fiz de você meu grande amigo que você nunca foi. Existem any maneiras de se dar um fora em uma mulher. Você não usou nenhuma. Preferiu ir levando tudo como se desse pra equilibrar tudo o que eu esperava de você e a sua vida. Com a sua família, seu trabalho, seus planos.

Eu queria coisa séria. Você queria uma diversão. A namorada estava no exterior e eu não sabia da existência dela. Obrigada por me magoar, me fazer de plano B. Eu não queria enxergar. Mas bastou ver suas atitudes, sua frieza e o esforço que você fazia pra ver meu sorriso que eu percebi. Tinha algo ali. No começo eu realmente não quis enxergar. Mentia pra mim mesma.

Era mais fácil assim. E você me ignorava. Eu ia te driblando. Ia insistindo. Achava que no alto da minha guerra de ego imbecil, estava no pódio. Mas minha autoestima estava guardada à cadeado em uma gaveta. Meu orgulho foi abaixo. Quanto mais me humilhava, mais achava que estava te ganhando. Só que você só era educado. Bastava dizer “não”. Era só dizer que não queria e me tirar da sua vida. Mas você dizia não querer e me abraçava no dia seguinte. Ficava todo fofo. Então eu ia relevando. Sabe, rapaz, te agradecer por me magoar é a forma mais madura que tenho pra dizer: eu acordei.

Te venci. Tirei você da minha vida. Saí do seu caminho. Mudei meu rumo. A depender de você, estaríamos até hoje nos vendo por aí. Você ia sorrir pra mim. Me abraçar, me beijar. E isso nunca teria fim. Era bem capaz deu enlouquecer. Me sentia como um boneco de cordas. Era manipulada pelas suas atitudes. Hoje me pego pensando em tudo e me pergunto “onde eu estava com o meu juízo?”. Se você não tivesse me magoado como fez, talvez eu ainda estivesse nessa loucura de mentir pra mim. Você não era frio. Não era ocupado. Não era indiferente. Não era inconstante.

Você não tinha interesse por mim como eu tinha por você. Seu único erro foi não sair do meu caminho antes de me magoar. Mas foi melhor assim. Cresci muito depois de você, moço.
Por isso sou grata. Isso foi necessário pra eu ver onde tinha me enfiado. Pra eu enxergar o que estava diante do meu nariz, mas eu fingia não ver. Era mais fácil e doce mentir pra mim.

Achar que você tinha escolhido uma vida preto e branco. E que eu iria colorir a sua vida. Você já tinha quem colorisse a sua vida. Só não me disse. E preferiu sim, o preto e branco. Mas me mantinha por perto. Devia ser bom não é mesmo? Ter sempre a trouxa aqui pra te ajudar. Te ouvir. Dar boas gargalhadas. Ser compreensiva. Claro que era bom! Era perfeito! Só que a trouxa aqui cansou. Porque até as trouxas se cansam. Saem de cena. Mais uma vez, rapaz, muito obrigada por me magoar. 


segunda-feira, maio 22, 2017

A gente precisa acreditar.


►Leia ao som de A gente só precisa acreditar, Ivo Mozart.◄

Olhe dentro dos meus olhos e segure a minha mão. Não há nada lá fora com que devamos nos preocupar. Feche os olhos às contas, aos seus medos e à falta de sucesso. Tudo o que temos hoje é o amor que nutrimos um pelo outro. E temos tudo. Feche os ouvidos à vida que insiste em dizer que não é a hora, que não é o momento e que fracassaremos. Abra os seus braços e me acolha em seu abraço. Devagar me envolva e olhe fixamente em meus olhos, pois a nossa verdade se esconde ali. 

Só por hoje eu peço que você quebre as regras e deixe o destino se esgoelar dizendo que não conseguiremos. Só por hoje, por um minuto, eu rogo que deixemos para trás tudo aquilo que atravanca o nosso caminho. A vida é tão efêmera e a brevidade dos dias vêm nos dizer que não há tempo a perder. Para quê economizar vontades? Se o nosso coração já sabe onde deseja estar. Se o nosso corpo só precisa de uma rede para descansar.

A gente só precisa acreditar nos sentimentos que trazemos conosco. Preciso abraçar com fé os nossos objetivos e olhar além das montanhas, dos problemas e das impossibilidades. A gente só precisa acreditar que tudo vai dar certo. Saber que a vida não se desenha em linha reta e ter compaixão por nós mesmos. Todos nós temos dias bons e maus. Todos nós sabemos que a vida precisa ser domada e não nos dominar.

Só por hoje eu peço que você olhe dentro dos meus olhos e veja a história que há muito estamos construindo. Que as promessas que fizemos em nossos lábios são maiores do que as adversidades que se instalam em meio a nós. Só porque hoje eu peço que você acredite. Acredite com o coração. Acredite com todo o âmago do seu ser. Só por hoje eu peço que os problemas sejam deixados de lado para que possamos olhar sem véu ao amor que temos. 

Só por hoje, porque no final das contas a gente só precisa acreditar.


sexta-feira, maio 19, 2017

A geração do desapego!



Dia dos namorados se aproximando é a mesma coisa que dezembro quando está perto da noite de réveillon: lá vem mais uma baita nostalgia com uma retrospectiva anual.que é que eu fiz durante esse ano de solteiro? Quantas bocas eu beijei? Ana Carolina, Gabriela, ops! Acho que era Sthefany mas chamei de Daniela, erro meu. Não estou acostumado em manter a frequência se é que me entende.

Um sábado à noite, um encontro, uma sorveteria, talvez um cinema ou até mesmo um domingo preguiçoso na cama de conchinha, vai depender de quem será a minha companhia. Ligo a televisão é: “só love, só love”. No rádio só toca música romântica, na rua todas as lojas estão abarrotadas de balão de coração, é uma epidemia tão doce que chega a me dar náuseas.

Marco um futebol com o Paulinho, mas ele tem que levar a mulher no aniversário da tia-avó. Chamo o Guto para aquele open bar e digo que levarei uma amiga da minha garota da vez, ele me dispensa porque o lance com a Caty evoluiu e agora ele entrou para o time do sosseguei. Eu hein, será que é o mal do século? Ou será que sou eu que não me canso dessa vida de rei?

Mas que reinado mas sem graça! Está sobrando vassalos e me faltando, a minha rainha.

-É, mais pera? Quem é que preferiu jogatina ao invés do xadrez? Brada um resquício de consciência e que me bota para refletir.

Foram tantas as companhias, mas continuo me sentindo só, não sei de quem é a culpa, mas quem arca com as consequências unicamente sou eu, e não há quem possa de mim ter dó. Eu que me prendo em um olhar, me rendo por um sorriso e até juro que vou casar por causa do sabor de um beijo, eu que me deleito em alguns corpos, sacio o desejo do momento e digo que depois eu vejo o que irei fazer.

É desejos, luxúria, corpos que se entregam, mas sem nenhum afeto. Eu quero me apaixonar, mas me proíbo antes mesmo do sol raiar, um beijo daqui um nome trocado dali, onde é que tudo isso irá me levar? Eu nunca sei, mas no final sinto uma vontade louca de pedir ajuda, mas quem é que vai mesmo me ouvir? Eu me fechei e mandei o amor ir parar em outra freguesia, porque aqui pra ele não tinha lugar. Então o que fazer quando a única vontade é de se apaixonar?

Eu devo estar ficando louco, mas pera, é apenas essa maldita data, sempre nessa época do ano fico nessa onda da casa de cerquinha branca, os filhos e o cachorro, mas logo o tempo voa e já voltamos para o carnaval, e de boca em boca eu vou calando as minhas intensões, o bom da vida é ser solteiro e ser o único dono de minhas emoções.

— Será? Me pergunta novamente a minha consciência gritante.

— Se tu estás tão feliz em ser da liberdade por que cogitas no amor pensar? Bom, guarde para si próprio suas justificativas, eu só sei que o mundo está aí, e você que finge estar vivo, está perdendo a essência do que realmente é viver.

Sabe aquela sensação que nos deixa com respiração ofegante, a ansiedade domina até acontecer o próximo encontro, e de repente nos vemos tão ligados a uma pessoa que o fato dela nos abandonar chega a doer? Ah é, tinha me esquecido, tu não conheces esse sentimento. Mas de dor tu entendes né? Dela tu se cerca toda vez que o amor te ronda e dele você jura não precisar. Então fiques nessa realidade alternativa que tu mesmo escolheste, e deixe a data 12 de junho para quem realmente não tem medo de ser romeu.

Nota de rodapé em adendo: “Tu escolheste a vida que estás vivendo, então não reclame da solidão, se ela é a única que tu permites ser permanente em sua vida”. 


segunda-feira, maio 15, 2017

Largo tudo se a gente se casar domingo.


 
 
Sábado.
 
Fecho os olhos e consigo lembrar teu primeiro sorriso: largo e acolhedor. A vida é mesmo muito maluca. De repente estou ali, cortando alguns papéis e em poucos segundos estou mergulhada no olhar de um desconhecido. Poucos metros nos separavam. O teu olhar me fitava curioso como quem desvenda um mistério. Sorri de volta, timidamente. Sem perceber que dentro de mim algo novo nascia. Aproximei para recepcioná-lo e teu abraço pareceu um moletom a me envolver. Eu não parecia estrangeira entre os teus braços. Parece que fui feita para estar ali.
 
A gente tem uma mania de embonitar a vida. De esperar por encontros hollywoodianos ou cenas cinematográficas. Quando na verdade as melhores histórias acontecem assim, ao acaso, em um sábado à tarde, num lugar improvável e cheio de pessoas. A gente espera tanto aquela clássica derrubada de papéis, ou encontros em aeroportos, mas nunca espera um sorriso convidativo ou um abraço que parece casa.
 
Você me veio aquela tarde para mostrar o quão bonita é a vida. Para despertar em meu coração emoções desconhecidas e me fazer acreditar que sentimentos bons nascem em quaisquer circunstâncias. Você nasceu ali, como um feijãozinho enterrado em um pedaço de algodão, nasceu timidamente, sem muitas perspectivas e de repente suas raízes se alastraram por todos os meus cômodos. Tive que abrir janelas e escancarar as portas. Tudo por conta do teu sorriso-casa. Teu sorriso-lar. Teu sorriso-vem-morar-em-mim. Fui.
 
A gente sabe que é casa de alguém. Dá pra sentir quando se acomodam dentro de nós. Quando desfazem as malas e arrumam suas coisas. As roupas se misturam, as escovas se beijam, as peças íntimas dividem a mesma gaveta. A gente sabe que é a casa de alguém quando abrem as nossas janelas para o sol entrar, quando têm zelo por nossos quartos, e amor por nossas paredes. Somos casa de alguém quando no mundo há mil lugares a ir, mas nenhum se compara a nós. Quando fechamos a porta de casa e colocamos a chave no bolso. Vou só até a padaria, amor. Eu já volto.
 
E você me volta sempre. Volta com o mesmo sorriso-casa, sorriso-lar, sorriso-vem-morar-em-mim, e eu sempre vou morar em ti. Porque "quando eu te vi fiquei paralisado". E sim, eu largo tudo se a gente se casar domingo, segunda ou qualquer dia que tu desejares.