terça-feira, outubro 02, 2012

Do amor e suas bobagens.


Ouvi dizer que as praias de Moçambique são belíssimas. Ela suspira enquanto continua a frase: - você poderia escrever cartas e colocar em garrafas jogando-as no mar ou então pode fazer algo mais direcionado, enviar um cartão-postal para seus amigos, de modo que eles pensem: “cara, esse moleque é doido, vai ser comido por leões.” É. Todo mundo acha que o fato de você estar na África te coloca em uma Savana, assim como todos acreditam que morar em Brasília te faz vizinho do Presidente. E então eu tomei uma dose de vodca. E sorri. Não dava para dizer que não iria enviar cartão-postal a ninguém, eu não era dado a manifestações de afeto. Achava aquilo tudo muito falso e sentimentalóide.

– Sim. As praias de Moçambique são lindas. Por fim falei. E enquanto ela acendia mais um cigarro eu pensei: “cara, como é sexy o jeito que ela acende o cigarro.” Estávamos mais ou menos em paz até então. E eu previa que a conversa humorada duraria poucos minutos, tempestade a vista era o que denunciava a cor de seus olhos. Eu lembrava de Alceu Valença, de Zé Ramalho e recordava o movimento estudantil e como ela era bonita quando abraçava alguma causa. Que ela tomava café como alguém que estivera há 3 dias sem tomar água no deserto do Saara. Que por vezes suas unhas escorriam sangue enquanto conversava nervosamente com alguém. E que ela (...) poxa, ela tinha um olho verde e outro castanho.

– Veja se as conchas da África são bonitas e... – Eu não entendia sequer uma palavra. Ela tinha covinha apenas na bochecha esquerda e uma pinta acima dos lábios estilo Marylin Monroe. E meu coração estava batendo, como diz a música, zabumba bumba esquisito dentro do peito. E embora houvesse sinais para ficar. A cabeça, comandante geral, apressou-me os passos e sem dar tempo ao coração agir “desferiu-lhe” em sua testa um beijo de adeus. Afetuoso. Não o suficiente para lhe dizer que eu era seu.

domingo, setembro 30, 2012

Adeus você.

Por favor, não me olhe com essa cara. Eu te imploro. Me dói um bom bocado te ver com chuva nos olhos, garoto. E me retarda um pouco, vês? Me deixa ir o quanto antes... eu preciso terminar de recolher as minhas coisas, mas ver você tão miúdo desse jeito me corta o coração. Você realmente não se lembra de tudo que você me disse ontem? Pois é, eu ponderei e concordei com todas as linhas atropeladas que saíram da tua boca chorosa. Então eu decidi recolher todos os meus pedaços e recomeçar no meu mundinho, na minha zona de conforto. Eu ‘tô levando tudo de mim, que é pra não ter razões pra chorar. Vai passar, talvez. Por favor. Me deixa ir. Deixa eu passar por essa porta. Entendo a tua raiva, por favor. Não pensa que vou por não te amar, mas eu realmente preciso ir. Sair dessa vida de mendigar amores.

Eu também acho que não deveria acabar dessa forma, mas ouvi dizer – não me recordo onde -, que alguns amores são bonitos simplesmente pelo fato de terem que acabar. E sabe? Eu concordo com isso. Ninguém lembraria de Romeu e Julieta se eles tivesse ficado juntos e constituído uma família, Titanic não teria sido um sucesso de bilheteria se o Jack não tivesse morrido também. A despedida sempre é bonita, beibe. E muitas vezes é necessária. Estou levando minhas coisas, para que tu não te apegues a mim. Me deixa ir. Enquanto ainda há um pouco de dignidade nesse relacionamento, enquanto podemos olhar um para o outro e dizer que valeu a pena. Só me deixe ir.



Em parceria com a bonita, Mafê.

quarta-feira, setembro 26, 2012

A culpa é?

A Culpa, realmente, é das Estrelas. Terminei de ler o livro ontem para uma discussão literária que participo no face, e não muito diferente dos outros eu também chorei. Não porque o livro fosse realmente muito triste. Porque não é. Ou é? Mas eu vejo apenas a vida “poetizada” por assim dizer. Quantas pessoas apenas morrem e viram névoa em nossas mentes até, por fim, simplesmente dissipar. Eu tive experiências dolorosas ao perder algu
ém querido. E enquanto eu lia um capítulo eu lembrei de mim, deitada com o cabeça afundada no travesseiro para abafar o meu choro. Sim! Aquele choro que você quer gritar, ou melhor, que você grita junto. É, não chorei exatamente por causa do livro. Chorei porque me arrancaram assim, do nada, pessoas que eu amava muito. Se você nunca perdeu alguém querido não sabe o que é não poder mais abraçar, não poder contar uma novidade. E eu fi
co pensando como a nossa “existencialidade” é tão efêmera. Nossa vida é água colhida pelas mãos que escorre pelos dedos em instantes. Ninguém eterniza ninguém. Você pode dizer que a pessoa ficará viva em seu coração. Eu já disse isso. Confesso. E realmente não somos “deuses” para manter ninguém vivo em nós, é impossível. A pessoa morreu. Morreu. A gente não lembra, sério. A não ser que sintamos alguma fragrância, estejamos em algum lugar que era comum aos dois, mas fora isso não lembramos. A própria memória trata de imitar a vida e mata a pessoa em nós também. 


Sinceramente. Eu choro hoje. De dor.

quinta-feira, setembro 20, 2012

Paciência.



Eu estive tão desconexa ultimamente e, sem perceber, fui criando motivos para não ter atravessar aquela linha tênue que hoje nos separa, pois sabia que de alguma forma ela era necessária para manter equilibrado aquele edifício que juntos construimos. E por que eu me importava tanto com a manutenção disso? Se eu disser que não sei facilmente você lerá em meus lábios que eu estou mentindo. Eu sei o motivo. É que eu tenho medo de atravessar a ponte, medo de dar passos em direção a você e perceber que não há mais o que se viver. Porque, caramba, eu sinto que ainda preciso desse sentimento.

E então divagando, como sempre, eu reajo a minha imagem refletida espelho que insiste em me interrogar: "o que você ama nessa história, moça?" Só que diferente da pergunta acima eu não tenho resposta. Porque eu simplesmente não sei o que dizer. Eu poderia dizer que sinto saudade do teu sorriso largo, poderia dizer que sinto saudades do seu sarcasmo ou até mesmo de apenas te ver passar por aí bem bonito como tu sempre fazes, mas eu embora eu busque argumentos para pedir que você permaneça de alguma forma aqui dentro, acredito, que não tenho paciência para lhe falar.

Paciência. Isso me falta tanto, sabe? Desde que você começou a ser ausente, quando resolveu ir à padaria comprar cigarro e me abandonar. Daí então é que as coisas ficaram mais claras, entenda que você não pode simplesmente entrar e sair da vida das pessoas como bem entende, como se as pessoas não tivessem sentimentos ou seus corações fossem uma loja de conveniência de beira de estrada. Entenda, é necessário partir de vez em quando, mas pessoas normais apesar de odiarem despedidas costumam por gratidão dizer adeus. Algumas mais cômicas no estilo Exterminador do Futuro, "Hasta la Vista, Baby." Mas você não. E eu sinceramente pergunto, por quê?

Talvez eu não saiba nunca. Porque, sinceramente, os meus pés permanecerão imóveis aqui. Não é que você não mereça esforço, ao contrário, é apenas uma forma de preservar aqui dentro a pessoa bonita que você é. É a única forma de manter viva em meu coração toda a tua docilidade. E talvez a melhor maneira de guardar em mim o teu sorriso, a tua voz, as lembranças mais suaves de um passado feliz, porque embora você tenha mudado em minhas recordações continuará sendo mesmo.  

quinta-feira, setembro 13, 2012

Para um amor que morreu


É duro você encarar uma decepção, ou melhor, conseguir enxergar uma situação como ela realmente é: nua e crua. Então, desde o início eu tentei deixar lá. Sozinho. Esquecido. Mas uma hora tudo o que a gente sente ou mantém, de alguma forma, vivo dentro de nós vem à tona. E venho sentindo, precisamente, na pele que esse dia chegou. Não seria exagero dizer que é necessário fazer uma faxina, de vez em quando dentro de nós, também confesso que tal decisão é excruciante. Será que excruciante é a palavra exata para medir a dor que estou sentindo? Sinto que há algo me consumindo, sabe? Dilacerando o que há de melhor em mim. E quando fecho os olhos a frase de Shakespeare: Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.” , parece tomar vida própria, quase se personificando.
E por que eu estou escrevendo? Porque eu preciso me esvaziar de tudo. Preciso pôr em ordem a casa, meu coração, limpar as gavetas com recordações e simplesmente jogar fora. Cansei de ser refém do meu próprio coração. Cansei de fingir indiferença diante daquilo que me doía de verdade. Cansei, sabe? Cansei de toda essa minha educação e reverência diante de um amor que na verdade nunca existiu, a não ser na sua uniteralidade. Um respeito quase que imaculado diante de idealizações criadas por um coração doente e masoquista. E então, hoje diante dessa decadência amorosa eu me pergunto: “Será que amamos realmente uma pessoa ou o que idealizamos em relação a ela?”
Há tempos essa pergunta martela em minha cabeça e, confesso, que sempre que tentei interligar ao meu “pretenso” amor essa pergunta, o meu coração parecia dizer: deixe lá, está escondido e esquecido. E então, ele foi permanecendo ali dentro, criando raízes como bem queria e eu, sem perceber, vivi em uma prisão ao qual o carcereiro [meu coração], permitia somente enxergar o sol pelas frestas. E durante esse tempo todo dentro de mim, a tristeza me envolvia e sabe? Eu sorrio, minha gente. Não porque eu seja um poço de contentamento, eu sorrio porque eu preciso viver um tiquinho, mesmo que “amarelamente”. Só que cheguei no meu limite, não quero ver um pedaço do sol, não quero apenas ouvir e saber que há pássaros lá fora cantando, eu quero viver isso.
E hoje, antes tarde que nunca, eu ensabôo o meu coração, jogo água mesmo, puxo com o rodo, porque durou tempo demais. Não era para ter enraizado. Não era para ser alimentado. Era para ter morrido. Alguns amores são bonitos porque tiveram que acabar, e algumas pessoas são mantidas em nossos corações como prisioneiras simplesmente pelo desejo obsessivo de tê-lo ali dentro. E sabe, diante de todos esses “nãos”, toda essa existência sofrível do amor em mim, eu realmente decidi que há tantos outros sentimentos bons por vir. Há tantas pessoas que gostariam de receber todo o amor que há dentro de mim, e que sim estariam dispostas a ficar. E sei, que hoje hei de sofrer. Mas não dizem que o tempo cura tudo? Então, eis-me aqui tempo à tua disposição.
Sem mais. Sem choro.

quinta-feira, agosto 16, 2012

Quando o paraíso teve que esperar.

Foi tão súbita a sua chegada que ela mal pôde encontrar ar. Sua respiração trêmula ficara segundo após segundo entrecortada. Ele é tão bonito! - Pensara em voz alta. Talvez alta demais, tanto que fora obrigada a desviar o olhar por medo de entregar a sua inquietação. Ela brincava com a borda da taça de vinho que ele oferecera, tentando não revelar a sua curiosidade. Um homem que falava sobre cinema, rock n'roll e cantava em uma banda de hardcore vestido, estupendamente, em um terno Armani.

Ela pensava: - Ele não existe, não existe, não existe. - E, sim parecendo ouvir os pensamentos dela chamou-a junto a sacada do prédio. A noite morria macia lá fora e podia-se ver o céu pontilhado de pequenos cristais, belas estrelas namoradeiras. E olhando os olhos da moça amendoados dissera:

- Você gosta da Lua?
- Sim. Mas prefiro as estrelas. E você?
- Tanto faz. Acho que dependendo do contexto elas são apenas expectadoras.
- E que contexto seria esse?
- Vinho, jazz, você e eu. Essas coisas que se tornam bonitas quando se tem poesia na alma.
(Silêncio)

- Que foi?
- Nada. Só poetizando você por dentro. Assim como o jazz.
- Você não deveria me dizer essas coisas.
- Por quê?
- Porque não tenho alma de poeta. E porque eu sinto vontade de responder, mas tenho medo de parecer idiota.
- As respostas nem sempre precisam ser verbalizadas, moça. Tome mais vinho.

(Silêncio)

Os cômodos estavam todos vazios. Não perceberam que aos poucos todos os convidados haviam indo embora, os olhos dela fixaram a porta indicando que também era hora de partir. Tocava "Forever Young" do Alphaville e por fim ela gargalhou:
- Bons momentos?
- Não é isso. Só queria dançar assim como a música pede.
- Elegantemente?
- Do modo que conseguirmos.
- Dancemos.

E em seu ouvido ele cantava, docemente - como podia -, "Heaven can wait we're only watching the skies." - É hora de ir, compreendo. Mas só se quiser ir. - Ele falou.
- Sim. Eu fico. - Ela respondeu.