“Existe uma flor que me desperta desejos. Ela tem a sua face quando eu a
observo. Consigo enxergar além do pólen e suas pétalas. As cores lilás e branca me remetem a um vestido seu de renda.”


Eu via seus pés sujos de terra branca. Aquela que está ao redor do parquinho. O seu vestido de renda parecia dançar com a brisa de um jeito tão sereno, que me lembrava uma criança. Lembro-me que dissera quando criança havia ganhado de sua mãe um vestido de crochê rodado e que fica por horas dançando. Como se fosse realmente uma dançarina, o ritmo da lambada fazia com que as suas rodadas fossem tão incríveis e perfeitas, sei que apesar da pouca idade você já via poesia ao dançar.

É engraçado como consigo projetar essa imagem da cabeça, mesmo não estando lá. Vejo você dançando e ao redor várias pessoas batendo palma no ritmo da música, encorajando-a, dando forças para continuar. E em seus lábios o sorriso infantil e a cinturinha requebrando sem maldade, dançando apenas sonhos. Tudo é tão preciso até mesmo aquela flor enorme de maracujá que você insistia colocar no cabelo. Dizia que precisava ficar tão exuberante quanto às dançarinas profissionais. Ora, moça quanto anos tinha?

Fico rindo imaginando você com toda sua doçura tentando ser mulher. Então, crio situações em que “você-criança” veste as roupas de sua mãe, calça os sapatos, usa seus colares e pinta seu rosto com maquiagem. Até olhar para o espelho e fazer o trejeitos de sua mãe, como a cara de zangada que ela sempre faz ou de piedade quando você se machuca. Moça, não estive na sua vida por muito tempo, mas a minha imaginação faz-me te conhecer tão bem. Perfeitamente.